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Maria Da Silva

06 de junho, 2020 - por Max Franco

A campainha soou atrapalhando o café da manhã da família Rodrigues.

-Droga! Quem deve ser nessa hora? – perguntou Martina finalizando seu croissant ainda morno. – Vanda, atende aqui para nós.

O garoto negro que entrou pela porta trajava roupas puídas demasiado largas para o pouco do seu corpo.

– Vanda, por que você deixou entrar? – interrogou Eduardo. – Manda sair pela porta de trás, Vanda. Mas, peraí … antes, vê se tem alguma sobra na cozinha. Pode entregar um pão ou…

-Ele é filho da Maria, seu Eduardo. – interrompeu Vanda, a nova empregada dos Rodrigues. – A Maria…

– Vim buscar as coisas da minha mãe. – falou o menino. Lágrimas escorrendo pelo rosto crispado.

– Ela morreu (…)? – começou Martina gaguejando. – Como você se chama, garoto? É Pedro, não é?

– Morreu. Depois de 15 dias no hospital, cheia de tubos, buscando ar para respirar. Morreu porque não pôde ficar em casa. Morreu com 53 anos, dona. Morreu porque pegou essa doença maldita.

– Você pode pegar as coisas da Maria no quarto para o Pedro, Vanda? – disse Eduardo

-É Davi, dona Martina.

-Não precisa chamar de dona…

-Mas é o que vocês são, não é verdade? Há dois tipos de gente, os donos e o possuídos. Vocês são os donos. Nós, os possuídos. Se quebrarmos, é só trocar, não é? – disse ele olhando para a nova empregada. – E o meu nome é Davi. Ela trabalhou com vocês por 8 anos e nem o nome do filho dela vocês  sabem. Também não sabem como ela tinha medo de vir trabalhar. Minha mãe morria de medo de abandonar os três filhos. Tenho dois irmãos mais novos, vocês sabiam? Minha mãe não queria vir trabalhar. Mas vocês exigiram, não foi? Se ela não viesse, vocês não pagavam. Ela tinha que vir lavar e passar bem direitinho essas malditas blusas amarelas que vocês amam usar pelas ruas no domingo. Ela morreu pelos seus pratos sujos, pelos seus banheiros, pelas suas roupas, dona.  Mas, não se preocupem! Vocês vão ficar bem. Nem vão se lembrar da pobre Maria. Era apenas uma Maria da Silva. Uma trabalhadora negra, pobre, sem importância. Os seus pratos têm mais importância. O seu café da manhã na varanda tem muito mais importância.

-Que é isso, garoto? – gritou Eduardo empurrando o menino na parede. – Isso é jeito de falar com a minha mulher? Saia daqui imediatamente!

E foi o que o garoto fez. Pegou o saco de supermercado no qual entulharam as coisas da mãe e ganhou a rua. Entretanto, em vez de dor e mágoa, as lágrimas dessa vez tinham o gosto amargo da raiva, uma raiva sem termômetro.

– Eles pediram para entregar esse dinheiro, rapaz. – Disse-lhe a mulher que correu em seu encalço.

O garoto pegou as duas notas de cinquenta fazendo uma careta.

-Um dia, eles vão se arrepender, garoto! Um dia, eles terão a parte deles. Deus vai fazer justiça.

-Vai não, Vanda! Você não entende? Deus odeia pobre. Deus odeia preto. Deus tem preferências. Deus gosta é deles. Por nós, só nós.

Disse o menino das roupas largas e partiu correndo para o seu destino.

Qual destino?