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A noite de natal

26 de dezembro, 2016 - por Max Franco

A noite já seguia alta quando ele entrou naquele pequeno bar do subúrbio de Maceió. “Este bar é tão pequeno que merece a minha presença. É um bar pequeno e vazio tal como eu”.

– Nós já estamos fechando, amigo. – disse o atendente de camisa aberta até o último botão.
– Quem somos nós? – perguntou olhando ao redor.
– Eu e o bar. Na verdade, nem sei por que abri. Nunca há clientes na noite de natal.
– Pois hoje há. Eu sou cliente. E quero uma cerveja gelada. Nada mais do que isso, uma cerva respeitosamente gelada. É o mínimo que um homem pode pedir na noite de natal, não?
– O sujeito olhou para o seu interlocutor de cima a baixo e deu de ombros. O olhar gritava impropérios com letreiro de xenon.
– Por que o moço não me acompanha na gelada?
– Não posso. É contra as regras da casa.
– Isso não é uma casa, é um boteco fajuto. Não deveria ter regras.
– Mas foi o dono quem as fez.
– Ele vai saber que você quebrou as regras?
– Claro que vai. Sou eu.
– Pois do que vale ser dono se você não pode quebrar regras?
Deu para ver que o homem lutava contra a hesitação até que, por fim, se decidiu por capitular, ocupando uma cadeira vazia defronte ao cliente exigente.
– Só porque é noite de natal…
– E não é.
– Como assim “não é”?
– Jesus não nasceu no dia de hoje. Na verdade, no dia 25 de dezembro, na antiguidade, se comemorava a saturnália. Era uma festa pagã, mais uma que o cristianismo se apropriou. Não há nenhuma prova de que Jesus tenha nascido neste dia, naquele ano, nem sequer naquele lugar. Tudo é uma convenção.
– Você é um tipo sabichão, não é?
– O contrário: sou aquele que tudo ignora e um curioso.
– Um curioso sabichão. Mas, por que alguém do seu naipe está passando o natal sozinho? Está de passagem na cidade?
– Não, no mundo. Vim de passagem para o planeta Terra há mais de 40 anos e ainda não me ambientei. Sou um eterno imigrante, um refugiado, bicho de outro habitat, um desajustado perene.
– Não entendo tudo que você diz.
– Você e o resto da humanidade. Nenhuma novidade para mim.
– Por que está sozinho? Cadê a sua família? Não tem amigos?
– Tenho. Mas não detenho tudo que tenho.
– Não entendi.
– De novo. Já virou hábito.
– Se me permite dizer, um homem que não tem com quem passar o natal deve ser um derrotado da vida. Um fracassado dos diabos.
– É verdade, mas você também não me parece muito acompanhado.
– Tem razão. – bufou o homem. E se fechou em copas num olhar pensativo. – A culpa é da vida.
– Não é. A vida não faz nada. Nós que fazemos da vida. A vida não erra, não toma decisões, não duvida nem posterga. A vida nem sequer vive. Nós que a vivemos.
– O destino existe, moço.
– Existe, mas somos nós que o ditamos. Nós e o Acaso. O Acaso é um deus temerário e caprichoso. Nunca brinque com o Acaso, amigo. Ele não tem piedade de ninguém…
A noite seguiu noite a dentro. Os dois homens solitários aplacando a solidão de cada um com a do outro. Eram duas solidões fazendo companhia uma à outra.
Quando chegou meia-noite, os dois se cumprimentaram, tomaram um caldo e entornaram a última garrafa. Minutos depois, quem passasse na calçada, talvez parasse um pouco para contemplar aqueles dois homens crescidos com lágrimas nos olhos se abraçando como velhos amigos.
– Feliz natal, Estranho. Um natal mais solitário que solidário, mas um natal!
– Feliz natal, Desconhecido. Que o próximo ano lhe traga companhia.
– Já lhe falei, ano não traz nada.
– É verdade! Nós que trazemos para o ano.
– Pois que, no próximo ano, você o trate bem.
– Pois que, no próximo ano, não nos revejamos.
– Nunca mais.
– Jamais!