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Vida é vai e vem

24 de novembro, 2021 - por Max Franco

Eu nunca choro. Isso mesmo. Não choro faz anos. Mesmo sendo torcedor do Vasco da Gama. Mesmo com esse governo nojento. Quando meu pai morreu, anos atrás, me acabei de dor, bati o carro no dia do enterro, engoli a agonia como fosse sopa de carrapicho e fui trabalhar. Não é por nenhuma convicção estoica. Não é nem sequer por vergonha. Só sou de lágrima rara.
Depois de explicar este fenômeno, quero falar desta foto.
Nela, minha última foto em Granada. E com ela, a Di. Sobre a mesa, tudo tem história. O cheesecake que comemos na minha primeira noite na cidade. Quisemos repeti-lo, quem sabe para sentirmos o doce daquele momento. O passaporte com os carimbos da Rep. Tcheca e Áustria. O livro que me trouxera à Granada. Foi só por causa do incentivo recebido da prefeitura que consegui vir vê-la. E, por fim, a grana que “sobrou”: 14 euros. Como prometi, gastei tudo. Para vir à Europa e viajar? Não! Nada disso. Para estar com ela. Estaria com ela até no inferno. Como estaria por todos que amo. Ela disse que estava precisando do pai, de ombro, de abraço. Eu escrevi o livro em menos de uma semana, peguei cada centavo e fui vê-la. São essas coisas que se faz por amor. São esses momentos que se transformam em grandes histórias. Para alguém? Não sei. Não sei se algo distante do umbigo das pessoas pode significar algo para alguém. Porém, para nós, significou muito, demais.
Quantos momentos ficarão cristalizados na nossa memória! Quanta estrada rodada. Quanta caminhada (longa) feita. Quanto riso. Quanta gafe, e mais riso ainda. Quanta admiração por ela, tão pouquinha, magrinha, forte e independente. Que mulher ela se tornou! Ela enfrenta o mundo com o coração do tamanho dele.
Como da vez em que estávamos angustiados pela falta de um documento do covid na fila do avião para a Espanha. Uma mulher que não conseguia se comunicar com o profissional da companhia aérea nos procurou pedindo orientações. Ela nem pestanejou. Parou de fazer o nosso formulário e foi ajudar a moça. Só depois de resolver o problema dela é que ela se dedicou ao nosso. E eu gordo de orgulho. Mas ela faz isso o tempo todo. As pessoas a procuram. Talvez porque notem nos seus olhos a bondade de que é feita. Já ela, ela nem se dá conta das coisas que faz e de quem é.
Por isso, se engana quem acha que as coisas que conto nessas linhas atrapalhadas é por alguma ostentação. Eu moro numa kitnet de 33 metros na messejana. Tenho um carro que ara ser chamado de popular precisa ser elogiado. Não tenho uma só peça de roupa que tenha pedigree. Sou – na verdade – de posses espartanas. Sou um cara que está ficando velho e se sentindo mais velho a cada dia que passa. Shakespeare dizia sobre o Rei Lear, “coitado do rei que ficou velho antes de ficar sábio”. Pronto, eis a minha definição. O que posso ostentar?! Talvez minhas cicatrizes. Talvez aqueles que amo. Estes, sim merecem admiração. Eu, não. Sou apenas um pássaro caído, de asas dilaceradas, em busca de reparo e reparação. Um amigo das palavras buscando reciprocidade. Ah, se fosse querido pelas palavras!
Então… Meus dias com ela escorreram pelas frestas dos dedos. O Tempo é o Senhor de tudo debaixo do céu. O Tempo, generoso e cruel. O Tempo célere nas melhores horas e tão lento nas piores.
Nos últimos momentos juntos, ela se aninhou nos meus braços como fazia quando era pequena. Ela ainda é pequena! Aí, revivemos nossas lembranças daqueles dias. Falamos dos nossos medos. Rimos das nossas tolices. Declaramos nosso amor. E choramos. Choramos desarmados. Choramos absolutamente. Choramos no caminho até a estação de ônibus. Choramos nos abraçando num abraço-sem-querer-mais-nos-soltar. Choramos acenando um para o outro quando o ônibus partiu. Choramos quando os passageiros choraram ao assistir à despedida de um pai e de uma filha que tardariam a se encontrar. E choro desarvoradamente enquanto escrevo este texto idiota rasgadamente sentimental.
Obrigado, Di, por encher seu pai de orgulho. Por me ensinar a ser um pouco melhor. Por essas lágrimas agridoces.
Obrigado por essa dor.