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Rei de copas
21 de julho, 2026 - por Max Franco
Foram-se a Copa, a capa, os copos e os capos.
A Copa acabou e terei que conviver – por mais 4 anos – com a síndrome de abstinência ao não poder assistir ao clássico Austrália x Turquia quando voltar para casa hoje. Tudo bem, terei, para tentar compensar, Independente de Medellin x Vasco da Gama na sula. Já que sofro nacionalmente, por que não fazê-lo em castelhano?
Há quem insista que futebol é apenas circo e entretenimento vazio. Já não concordo com o “apenas circo”, porque circo é meio de vida de muita gente, como também é provisão de consolo e alegria de tantos outros. Turismo, cinema, TV, literatura… há diversos modelos de circo no mundo atual, inclusive o próprio circo que data de tantos séculos. O que faríamos, afinal, sem os palhaços hodiernos e seus malabarismos?
Outro aspecto simpático em relação ao futebol tem a ver com seus admiradores, afinal não é a proporção de intelectualidade que define paixão futebolística. Camus, Galeano, Umberto Eco, Sartre, Nelson Rodrigues, José Lins do Rego, Luís Fernando Veríssimo, Drummond, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, Clarice Lispector, Chico Anísio, Chico Buarque, e muitos outros literatos, autores, artistas e intelectuais amavam o futebol, demonstrando o alcance democrático do esporte mais popular do mundo.
Futebol é alienação? Pode até ser. Da mesma forma que a música ou até a sacrossanta Literatura também se tornar. mAs quem não precsia de certa dose de alienação para viver? Por isso, faz sentido se dizer que, das coisas menos sérias da vida, o futebol é a mais séria ou é a mais séria para muita gente em todo o mundo, especialmente para o brasileiro que se acostumou com as vitórias e, há 24 anos, padece se uma aridez miserável de êxitos futebolísticos.
A Copa 2026 acaba é foi uma boa diversão, apesar de mais um fiasco da nossa seleção. O mundo corporativo, por sua vez, costuma catar alguns fatos ocorridos em campo a fim de empacotá-los em forma de verdades absolutas aplicáveis nas empresas. Maslow dizia que, para quem tem apenas um martelo na mão, a tentação é de transformar tudo em prego. Pois o mundo das empresas tem essa miopia cognitiva de querer enxergar tudo pelo viés da aplicabilidade corporativa, como se um sujeito não pudesse simplismente se sentar no sofá e curtir o jogo pelo prazer do jogo. É uma espécie de sensação de culpa generalizada da mesma família do famoso “férias para carregar as baterias para o trabalho”. Férias não deveriam ser para o trabalho, afinal. Férias são para a gente e, não, para o trabalho. Mas paciência…
De toda forma, vou ser incoerente, e trazer uma lição desta copa para o mundo dos negócios: ganhou a equipe que soube ser equipe. Não precisou de protagonistas. Venceu quem se preparou melhor, quem treinou mais e praticou o jogo com disciplina tática. Poderia ter sido diferente? Poderia. O futebol, igual à vida, é imprevisível e, como dizia o Nelson, há momentos nos quais o Sobrenatural de Almeida interfere. Porque – claro – existe tática, existe técnica e existe estratégia, mas futebol tem sempre um elemento de caos que desestabiliza tudo. Igual à vida. Por isso que é tão apaixonante.
A capa de que falei no título tem a ver com as imagens construídas durante essa copa do mundo. O que tem elas? Despencaram quando as máscaras também caíram. O esporte figurou nas vitrines ao lados das propagandas multiplicadas nos quatro intervalos que os americanos inventaram. Com também nos comerciais de bets protagonizados por celebridades brasileiras que nem precisavam tê-los feito, porque já tem dinheiro em demasiado.
Os copos foram atenuados pelo fracasso da seleção canarinha. E o povo brasileiro que, atualmente, se une tão raramente e carece tanto de motivos de festejos, foi usurpado desses folguedos pela inércia dos nossos jogadores e técnico. Um grande desperdício de talento e de possibilidades.
Os capos, por sua vez, que promoveram a Copa e os copos não desperdiçaram a malograda chance de também proporcionar vexames em várias oportunidades, tais quando barraram familiares e integrantes de comissão técnica nas fronteiras dos EUA; na interferência do presidente americano no cartão vermelho do Balogun e até na sua participação vergonhosa na premiação da equipe espanhola. Os capos tiveram a chance de mostrar para o mundo o melhor que os Estados Unidos possuem, entretanto as imagens que ficarão dessa Copa serão justamente as piores.

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