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O valor do ouro

18 de julho, 2020 - por Max Franco

Wilde, o grande Oscar Wilde, considerado por muitos como o primeiro homem moderno, entre outras coisas, dizia:

-Vivemos em mundo onde tudo tem preço e nada tem valor.

E o dizia há mais de cem anos.

Isso não é um aforismo, isso é profecia.

Cá estamos em um mundo onde absolutamente tudo tem preço e, realmente, nada parece ter mais valor.

Nelson Rodrigues dizia que dinheiro comprava até amor verdadeiro.

Mas e se…

Podemos conjecturar o “e se”, podemos? Ainda podemos? Não é – ainda – de todo reprovável pensar diferente do lugar-comum. Não é proibido cogitar uma modalidade de vida que não siga os ditames sociais vigentes nos dias hodiernos. Então – ao menos – pensemos.

O valor das coisas não é intrínseco. Não há valores universais nem atemporais. O que é valor aqui nem sempre é acolá. O que é valor hoje, provavelmente, não era ontem, nem, talvez, será amanhã. Em outras palavras, valor atribui-se, aqui e agora.

O ouro, por exemplo, por qual motivo tem valor? Para que serve o ouro na prática? Para nada. E por que ele tem valor? Porque entramos no consenso que ouro tem valor. Tire o consenso, o padrão, a tradição, o acordo, e o que sobra? Um metal dourado. Valioso? Não obrigatoriamente.

O ouro tem valor porque dizemos que tem.

Por que as vidas de crianças desamparadas não têm igual valor do que o ouro nos dias atuais? Porque não chegamos a esse consenso.

Por que a preservação da natureza não tem igual valor do que o ouro nos dias atuais? Porque não chegamos a esse consenso.

Muitas interrogações semelhantes poderiam ser suscitadas e, para todas, chegaríamos a igual conclusão: não damos valor a algumas coisas porque ainda não nos dispusemos, como sociedade, para tal.

E se a gente aproveitasse o ensejo da pandemia para resetar tudo? Bem que podíamos dar um restart na máquina e reprogramá-la toda alterando alguns paradigmas fundamentais. Que bom seria.

E se as vida humanas, quaisquer que fossem, tivessem valor para todo ser humano?

E se grana, status e poder não fossem as pautas mais importantes?

E se a natureza fosse encarada com respeito?

E se ética e empatia não fossem apenas clichês?

E se a gente esquecesse toda burocracia idiota, todas etiquetas bobas, todos os padrões retrógrados, todos os preconceitos tolos e se olhasse com a vista limpa de todos os julgamentos enferrujados?

E se gente combinasse outras formas de viver e conviver? Bastaria isso: combinar.

Bastaria trocar valores por outros. Bastaria ressignificar, rebatizar, reordenar e redefinir as prioridades.

Difícil? Decerto.

Impossível? Talvez.

Mas, sonhar ainda não é – de todo – subversivo.

Pois sonharei com esses “e se’s” e terei os melhores sonhos. Dormirei abraçado aos meus sonhos vãos e azuis.

Até o dia que sonharei eterno.