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Dos anos acumulados e dos que – talvez – se ajuntem

20 de fevereiro, 2026 - por Max Franco

Certa vez li em alguma rede social uma frase que ficou repercutindo na minha cabeça: “houve uma vez em que você e seus amigos saíram para brincar pela última vez, e nenhum de vocês perceberam.”

Isso – de fato – ocorreu.

Geralmente essa frase é atribuída à infância, mas – sei lá – minha concepção de brincar tanto nesses períodos cretáceos. para dizer a verdade, se me chamarem hoje, às 15 horas, para descer no condomínio para jogar bola na quadrinha, eu o faria sem pensar duas vezes. Entretanto, completo amanhã 56 anos e, não, 12 ou 13, como, às vezes, me vejo.

Amanhã, por sinal, reunirei amigos e colegas de futebol de diversas gerações. Foi o que decidi fazer no meu aniversário: alugar um campinho, pedir um espetinhos, chamar a galera que jogou comigo há 10, 20, 30, 40 anos para fazer um torneio de comemoração dos meus mais de 50 anos vividos e vívidos.

Dizendo assim, parece simples, mas não foi: para realizar tal feita, precisei passar por alguns procedimentos nos meus tornozelos estourados por anos e anos de maltratos aos desgraçados. Precisei pedir ao Dr.Rafael, meu ex-aluno, que realizasse algumas infiltrações de anestesias e doses generosas de ácido hialurônico nos meus dois tornozelos, cada um pior do que o outro. Por que estou relatando esse caso com tais detalhes? Porque o episódio me gerou algo parecido com uma epifania. A verdade é que tenho 13 anos há diversas décadas, e isso me deixou melhor e pior. A decadência física, por exemplo, é uma realidade que vem se instalando com uma ferocidade absurda. Sabe aquela frase que a gente ouve (ou diz!), às vezes, em campo?

– A mente consegue fazer, mas o corpo não acompanha!

Pronto: é essa a maldita conclusão a que chegamos depois de certa data, ou datação.

Amanhã, portanto, tem este significado para mim: a última vez que brincarei com meus amigos, mas eu me apercebo disso.

Não me interprete dramático em demasia. Eu moro longe dos meus antigos companheiros de futebol. Vejo-os raramente nestes tempos de exílio. Por isso, existem vários que não vejo há anos e não sei se teremos muitas oportunidades no futuro. Não sei, por exemplo, se terei tornozelos que me permitirão novas aventuras futebolísticas. Não sei se não será, de fato, a derradeira vez. Isso me faz valorizar muito este encontro, estas pessoas, todas as memórias que compartilhamos, e são tantas. Não obstante…

Eu sei que é cisma de quem tem RG encardida cultivar essas elocubrações de fim de vida antecipada, mas quem disse que o fim de algo me espera na próxima esquina? A Vida me pode proporcionar muitos fins, começos e recomeços. A Vida –  sabemos – é pródiga em surpreender. Quantos gols ainda virão? Quantos filhos terei? Quantos amigos e momentos e risos e sorrisos guardarei debaixo de sete chaves? Quanta Vida terá no meu caminho à frente enquanto espero encontrá-la apenas no retrovisor?

Hoje é a véspera do dia dos meus dias. O dia inicial foi há 56 anos. O principal é hoje, este dia, não ontem, não amanhã, o dia que tenho entre as mãos, este minuto e segundo, que se esvai entre meus dedos.

Hoje simbolicamente e de fato piso o chão da terra que digo minha. Entro no mar esverdeado e bravio do mar com o qual estou acostumado. Sinto o aroma do vento que refresca as gentes da minha gente, enquanto aprecio as iguarias com as quais me criei. É como uma volta ao ventre, um renascimento. Tenho outras chances.  Tenho coisas, e muitas, a fazer. Tenho gente para amar. Tenho planos e sonhos ainda recém-nascidos. Tenho outros tempos além dos passados? Espero. Coragem, ainda tenho. Não tenho tornozelos de 13, mas tenho asas de fantasia que me erguerão e voarei.