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A Vida que queria ter

29 de março, 2024 - por Max Franco

Certa vez peguei um táxi para ir ao trabalho. Na verdade, esse fato faz tanto tempo que nem sei mais se era para ir ao trabalho. Sei, porém, que era um taxi e não um uber. Também sei que era em Fortaleza e que não demorou muito para entabular um papo comprido com o motorista. Minha mulher costuma me criticar por iniciar conversas com estranhos até na fila do pão, mas a questão é que ela se esquece que todo mundo tem alguma boa história para contar e que sou um colecionador de boas histórias.

O taxista tinha mais de 60 anos. Idade que, naquela época, eu considerava ser a de gente velha. Hoje, aos 54, empurrei naturalmente essa fronteira lá para os 80 anos, com a sensação de que, logo-logo, empurrarei para os 100. O “moço”, então, me explicou que já estava aposentado e que trabalhava com o táxi apenas para bancar o que chamava de luxo.

-E qual é o seu luxo, seu Roberto? – perguntei.

-Dançar.

– Como assim?

– Isso mesmo. Eu trabalho de dia. À noite, vou pro samba.

– E a sua mulher?

– Tem vez que não vai, mas mesmo assim eu vou.

– Quantas vezes por semana?

– Umas 3 ou 4 vezes por semana.

– Então, o senhor é um pé-de-valsa?

– De samba, né?

– E isso é desde jovem?

– Não. A vida inteira foi de trabalho. Entrei no batente aos 14. Depois fui caixa de banco. Só trabalhei nessa vida.

– Mas sabia que queria sair para dançar?

– Não sabia. Só fui saber depois de velho. Mas quando descobri, não parei mais. Hoje sei que vou dançar até morrer no salão. Mas me arrependo muito de não ter começado mais cedo. Porém – você sabe – eu tinha obrigações e filhos para criar.

– E hoje?

– Hoje meus filhos estão grandes e não precisam mais de mim. Hoje eu vou pro samba, porque essa era a vida que eu queria ter e não tive, mas hoje tenho.

Não sei bem o motivo de ter me lembrado hoje desse diálogo singular de tantos anos atrás. Sei que conversando com a minha mulher, Rebeca, essa memória foi acessada. Lógico que a pergunta que me veio foi “Hoje eu tenho a vida que queria ter?”.

Mas o que é, afinal, a “Vida que queria ter”?

Aí me vem o que Friedrich Nietzsche dizia:

– Demore o tempo que for para decidir o que você quer da vida, e depois que decidir não recue ante nenhum pretexto, porque o mundo tentará te dissuadir.

O que chamo hoje de cotidiano é próximo àquela imagem que eu tinha outrora da Vida que eu queria ter? Eu a tenho hoje? E se não tenho, o que posso fazer para tê-la? Ou devo desistir de vez? Sonhos – claramente – também são datados. Eu não tenho hoje os sonhos que tinha antes. Alguns, porque já os realizei. Outros, porque prescreveram ou perderam a validade. Sonhos, afinal, também nascem, vicejam, vigoram, debilitam e morrem. Quem não sabe substituir sonhos passa a vida monotemático, obsessivo, ressentido e, muitas vezes, amargurado.

Contudo ter a vida que quis ter é somente realizar seus sonhos? E quem sonhou sonhos muito altos está fadado à infelicidade?

Ter a vida que quis ter pode ser algo muito mais comedido. Pode, afinal, ter a ver com coisas muito mais ordinárias e comezinhas. Talvez seja, inclusive, uma rotina muito trivial ou corriqueira, que jamais vá inspirar filmes ou romances tórridos. É que a vida da maioria das pessoas é algo realmente muito simples e comum. Todavia quem disse que não podemos ser felizes com as banalidades do dia a dia? Quem disse que não podemos ser felizes até quando estamos tristes? E quem disse que precisamos ser felizes para sempre? A felicidade é um estado e, como estado, estamos ou não estamos. Ninguém é permanente feliz. Nem aqueles que ostentam que são. Principalmente aqueles que alardeiam que são. E mesmo assim essa pode ser a vida que se quis ter.

Eu respondo à pergunta que me fiz no começo:

– Sim, essa é a vida que um dia quis ter! Tudo é como quis? Não. Decerto mudaria algumas coisas. Entretanto a contabilidade é muito mais positiva do que negativa, afinal fiz tanta coisa que sonhei fazer, amo e sou amado, tenho filhos inacreditáveis de tão bons, tenho um trabalho que me faz despertar todos os dias com gosto e vontade de fazê-lo, tenho amigos bons e leais, o café é honesto e forte, o dia é vivido com tesão e coragem, as viagens que faço são apaixonantes, os livros que leio são lindos e bem lidos, o mar da minha terra é quente, os desafetos – todos os dias – mais e mais esquecidos, enquanto os afetos mais e mais amados. E ainda faço gols.

Isso é tudo que eu poderia ter desejado outrora?

Lógico que não. Mas é bastante!

-Então, seu Roberto, cada um com a sua dança!