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A hora da verdade

24 de abril, 2018 - por Max Franco

Foi que o Leão, rei da selva, na sua voz mais gutural comunicou aos seus subalternos que deveriam estabelecer nova gerência na ala norte da floresta.

– A coruja não funcionou. Passava o dia dormindo. Estava acordada quando menos precisamos dela. Vamos enviá-la para outras redondezas e, se ela não aceitar, não tem problema. Sempre apreciei coruja à passarinho.
– E qual o perfil do novo posto, chefe? – perguntou a Raposa, que não gostava de perder tempo.
– Alguém que durma de noite, que seja esperto de dia. Além disso, é bom ter poder de liderança, capacidade de decisão, alguma experiência em cargo de gestão, vigilância e dedicação. – definiu o Leão.
– Perfeito. – disse a Raposa. – Vou conferir o nosso banco de dados, anunciar nas redes, dar uma busca no linkedin…
– Faça o que tiver que fazer, Raposa. – rugiu o Leão. – Só acerte desta vez. Se não é você que vira espetinho.
– E a Raposa fez que tudo prometera. No dia da entrevista, eram 3 os candidatos: o Porco-espinho, a Lebre e o Jabuti.
– A Raposa leu os cv’s de cada um e se deu conta de que todos tinham boas condições acadêmicas. A história profissional diferia bastante, mas, em suma, os três tinham semelhantes chances de ocupar a cadeira de gerente da ala norte da floresta. A Raposa já havia feito diversas perguntas para cada um e estava satisfeita com todas as respostas. Entretanto, havia guardado a mais difícil para o final:
Meus caros, até agora, eu só ouvi qualidades de todos vocês. Mas todo mundo tem defeito, menos o Rei Leão, é lógico! Eu tenho uma dúvida: qual é o seu defeito? No que você acha que precisa melhorar?
Os três se entreolharam e, para demonstrar poder de decisão, a lebre começou:
– Eu sou muito apressada! Tenho obsessão por horário e odeio perder tempo. Para mim, tudo deve ocorrer o mais rápido possível. Sou ansiosa por natureza.
– Eu, porém, tenho um defeito enorme. – disse o Jabuti. – Eu sou muito perfeccionista. Para mim, não importa a velocidade. Importa que seja bem feito, detalhe por detalhe. Sou demasiado exigente. Intolerante com incompetência!
A Raposa percebeu que ambos ficaram muito confiantes depois de darem as suas respostas. Eles demonstravam aquela expressão inconfundível de vitória.
E você, Porco-espinho? Qual o seu defeito profissional?
O animal baixou os olhos e suspirou meio desalentado. Demorou alguns segundos parecendo escolher as palavras. Por fim, declarou:
– Eu tenho muitos defeitos. Luto contra eles há anos. Sei que existem e que incomodam. Adoraria que não fossem meus, mas são.
– Especifique, rapaz! – exigiu a Raposa.
– Eu sou um porco-espinho. Ãs vezes, mesmo sem querer, eu machuco aqueles que trabalham comigo. Sou meio destrambelhado, sei lá. Tento evitar. Mas, sou o que sou. Muitas vezes, também, sou esquecido, desorganizado, valorizo algumas coisas, ignoro outras. Sou meio distraído e meto as patas pelas patas.
– Você não acha que pode comprometer as suas chances de conseguir o emprego sendo tão sincero? – perguntou a Raposa surpreendida.
– Claro que acho! Eu poderia dizer tanta coisa. Dizer que sou fanática por organização. Dizer que sou viciado em compliance. Todo mundo diz o que quer dizer. Mas, vocês acabariam descobrindo, não é mesmo? Eu sou assim, espinhoso. Tenho boas qualidades, porém elas não apagam meus deméritos. O que posso lhes prometer é que trabalharei com todo o afinco e com todo esforço possível para minimizar as minhas fraquezas. Posso assegurar o meu comprometimento. Mas – nunca – perfeição.

Por fim, foi mesmo o Porco-espinho a ser contratado.
Por quê?
Porque ele foi autêntico e transparente.
E, além disso, ele apresentou outra grande competência: ele foi corajoso.
Só quem enfrenta as suas debilidades com coragem e abertura é capaz de superá-las.
E a ala norte da floresta, depois disso, teve o seu melhor governante.
Os animais, porém, continuaram evitando os abraços do seu chefe.