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A coisa da rua

18 de junho, 2021 - por Max Franco

Talvez seja sinal de velhice olhar para trás e lembrar-se dos detalhes mais irrisórios.
Eu era um meninote de dez anos. Meu pai saía para trabalhar e sempre lhe pedia a mesma coisa:
– Pai, me traz alguma coisa da rua.
Ao que ele sorria um sorriso silente, mas cheio de promessas.
Eu passava o dia inteiro fazendo as minhas coisas de menino e, de vez em quando, olhava para o portão para saber se ele havia chegado. A espera por si só já era uma delícia.
A “coisa da rua” nunca era algo de encher os olhos: umas balas de hortelã, um pirulito de caramelo do zorro ou algumas revistinhas em quadrinhos do Pato Donald ou do Homem-aranha. Porém, eu amava recebê-las. A “coisa da rua” era sempre revestida de surpresa ou apenas da satisfação da novidade ao fim do dia.
Eu gostava mesmo era das revistinhas. À época, havia um sistema em algumas bancas de revistas que permitia que os clientes trocassem os gibis por outros com um pagamento pequeno. Hoje, talvez, uns 3 ou 4 reais por revista. Logicamente não eram revistas novas e, por isso, era bastante comum que viessem revistas que eu já tinha lido. Entretanto, não me lembro de tê-lo dito ao meu pai. Mesmo que ele trouxesse a mesma revista várias vezes, eu não reclamava. Afinal, era uma “coisa da rua” e “coisa da rua” sempre é legal. Ele levara minhas revistas antigas e passara alguns minutos negociando a fim de trocar por outras. Como eu denunciaria as repetidas depois disso? Eu as lia, relia e relia.
Deve ser ancorado nestas lembranças que – hoje – eu tenha o mesmo hábito com as pessoas que eu amo. Não posso ver nenhum troço na rua que eu saiba ser do apreço dos seres que são destinos dos meus afetos. Pode ser a coisa mais tola, mas costumo adquirir e levar. A maior alegria ver nos seus olhos aquele brilho de alegria que, outrora, decerto eu ostentava.
A verdade é que “a coisa da rua” não é o que mais importa. O melhor é saber que foi lembrado por alguém que o ama.
O que mais importa é sempre o amor que vai e que vem. É o amor que se tem.
Mas é uma pena que não troquem mais revistinhas em quadrinhos velhas.
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