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Desempáticos

04 de abril, 2021 - por Max Franco

Há dessas palavras, as quais, de tão repetidas, perdem a força do seu significado, como ficassem puídas e esfarrapadas pelo excesso de manuseio. Entre elas, aparece no topo da lista atual das palavras que perderam poder, a palavra empatia.
A origem no termo em grego empatheia vem de “paixão” ou “padecimento”, isto é, dor. Por isso, denominamos de “paixão de Cristo” ou de “patologia”. Também, pelo mesmo motivo, o apático não demonstra emoção e o antipático se posiciona contra. A empatia, por sua vez, pressupõe uma interlocução afetiva com outra pessoa e é um dos fundamentos mais relevantes de identificação e compreensão psicológica entre os indivíduos. Entretanto, na maioria das vezes que você for pedir uma definição de empatia, o conceito que virá será mais simples. Vão lhe dizer que empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro.
Se eu só consigo ser empático se me coloco no lugar do outro, na realidade, eu me importo com quem? Se naquele lugar estou eu, é óbvio que eu só me importo comigo mesmo. Podemos fazer apologias à solidariedade e à fraternidade, podemos falar de neurônios-espelho, podemos enaltecer o instinto de bando, podemos qualquer coisa, mas a verdade é que só nos importamos com alguém se nos colocamos no seu lugar. No frigir dos ovos, até quando solidários, somos – de certa forma – egoístas e egocêntricos.
Entretanto, ninguém questiona que, entre todos os modelos de egoísmo, o empático ainda é o mais palatável. Quem dera se todo egocentrismo se transfigurasse em bom-mocismos. Seria muito mais fácil viver em sociedade.
Infelizmente, o cotidiano nega e nega pesado quaisquer vestígios de empatia que poderíamos garimpar. Empatia nas ruas, escritórios e ambientes sociais, é mais rara do que diamante. A palavra, por sua vez, é onipresente. Virou emblema de soft skills e arroz de festa. Pinga das bocas qual saliva. Estampa propósitos e valores corporativos. É ingresso para se entrar na festa. Largado na primeira lixeira após a entrada. É narrativa e, não, fato.
O melhor é que, muita vez, basta citar o vocábulo para que ele faça o seu efeito mágico de atribuir civilidade a quem o menciona, mas é apenas um abracadabra, um salamaleque. No fim do dia, “empatia” é um misencene, um jogo de cena. Não é sentimento, é senha.
Eu trocaria essas toneladas de empatia verbal por algumas gramas de compaixão verdadeira.
É que só acredito no empático que acha que ainda não é tanto quanto deveria. O “cidadão do bem” jamais se considera como tal. Ele se acredita em construção, imperfeito, equivocado e, quem sabe, egoísta. É que o canalha, raramente, se sabe canalha. Geralmente o sacana é autoindulgente. Deus entende seus atos, perdoa seus deslizes (se existirem) e observa suas inúmeras boas intenções.
Se eu fosse a empatia, cobraria royalties, cobraria direitos autorais.
A verdade é que nem consigo mesmas as pessoas são empáticas. Imagina com as outras.
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