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O barulho estranho

09 de maio, 2026 - por Max Franco

Diferente da música do Legião, não foi ela que se jogou da janela; foi ele. Também não foi do 5o andar; foi do 17o.

Nada fácil de entender.

O relógio marcava 6 horas da manhã pontualmente. Eu me arrumava para o trabalho enquanto o café esquentava no fogão. Um dia cotidiano, igual a muitos outros. Entretanto, o estrondo que se fez quando algo, sei-lá-o-quê, se estatelou ao lado da piscina foi coisa difícil de se explicar, e mais difícil ainda de se esquecer. “Foi um acidente de automóvel?”, cogitei. Os vizinhos correram para as sacadas e janelas do edifício, tentando identificar o que tinha ocorrido. A notícia chegou veloz: ele tinha 71 anos, morava sozinho, se atirou do andar mais alto do prédio e deixou uma carta de despedida.

Mas eu terminei de tomar meu hodierno café da manhã, me vesti completamente, beijei minha mulher, driblei os policiais que estavam no hall do condomínio e parti para o meu dia, como faço na maioria das minhas jornadas semanais. Nessa ocasião, porém, atrasei dez minutos. O sujeito tinha se atirado do 17o andar e eu me atrasei por dez minutos.

Nada fácil de entender.

Entretanto, o som, o maldito som, o barulho infernal, repugnante,  incoerente, inoportuno, avassalador continuou se repetindo na minha mente, como aquela música chata meio cliclete que fica buzinando no seu ouvido mesmo quando você deseja esquecê-la. Principalmente quando você quer, mais que tudo, apagá-la da memória.

O que faz um ser humano rasgar todos os seus mais intrínsecos instintos de sobrevivência e se jogar no vazio do vento? O que sentirá para ter a coragem mais covarde de todas? O que passará pela sua mente um segundo antes do precipício?

Eu não conhecia o cara. Talvez tenha já encontrado no elevador ou no hall de entrada do edifício. Mas, afinal, quem conhece – nos dias de hoje – os próprios vizinhos? Quem conhece até o conhecidos? Somos todos estranhos recíprocos, não somos?

Mas o que teria feito caso conhecesse? O meu “bom dia” teria algum efeito lenitivo para a sua alma?

Somos todos estranhos e estranhos mutuamente.

Mas a desgraça do barulho não me sai da cabeça (ainda!).

Dizem que ele caiu de pé e que não houve grito algum. Eu mesmo não ouvi grito e isso me intriga até agora. “Como assim despencar mudo do 17o?”. Não: reinava o mais absoluto silêncio, aquele silêncio de início de dia mesmo numa cidade tão imensa e cacofônica quanto São Paulo, mas, de repente, a pancada, o susto, o estranhamento e as entranhas. As entranhas esparramadas perto da piscina e os meus sapatos incólumes desenhando um passo atrás do outro a caminho do estacionamento. A Vida urgente me esperava, me perdoe a pressa, o mau jeito, mesmo quando a morte se avizinha de forma tão dramática. É que rotina não deve ser interrompida por tragédias alheias, deve? A Vida não se importa tanto com tais vicissitudes.

Não obstante, acho que nunca me esquecerei daquele estampido repulsivo, do som da morte espatifada.

Não sei por que, mas considero que não pensei ainda o quanto deveria sobre este episódio. O dia engoliu minhas reflexões. Por isso, sinto que deveria ainda me sentar em um canto silencioso e puxar as reminiscências daquela quinta-feira a fim de conquistar alguma conclusão necessária. Algo me escapou. Eu deveria ter entendido algo que não entendi. Mas ninguém morre para que algo me possa fazer sentido. As pessoas morrem e pronto. Morrem e caput. Requiescat in pace. Morrem de qualquer forma e por qualquer motivo. às vezes sem motivo algum. Não sei. Sei pouco. Sinto muito. Sinto nada. Deveria sentir.

Talvez para evitar que, um dia, cedo do dia, seja eu a saltar para o nada.

Nada fácil de entender…