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Devagar
24 de maio, 2026 - por Max Franco
Não costumo escrever quando não estou padecendo de alguma angústia, a não ser que esteja sendo pago para isso. Hoje, não obstante, não estou propriamente angustiado, a não ser das inquietações veniais às quais todo indivíduo com, ao menos, dois neurônios naturalmente é submetido. Só gente obtusa e alegrinha acorda e dorme sem grandes aflições existenciais, a não ser aquelas desditas mais básicas e urgentes de se arranjar o que comer e onde dormir. Hoje, porém, não estou afligido de nada nem estou sendo pago para escrever alguma coisa. Escrevo, então, porque tenho mente para pensar e dedos para digitar. Escrevo sem fins pecuniários e isento de necessidade de purgar qualquer dor hodierna. Escrevo gratuitamente sob todos os aspectos.
Rubem Alves dizia que não conseguia tolerar gente alegrinha. “Os alegrinhos me querem a roubar a minha tristeza e todo mundo precisa ser um pouco triste”.
Pois a minha mulher me disse ontem que não era infeliz, mas era uma pessoa dada, em certas ocasiões, a cevar melancolias, e isso me sequestrou os pensamentos por certo momento. Dostoiévski, que elucidou toda a alma humana mais de um século atrás, dizia que “quanto mais consciente um homem se torna, menos capaz de ser feliz ele é”. Eu não sei se sou tão consciente assim e, principalmente, se aqui em casa o clima não é deveras saltitante, mas é possível que estejamos, mesmo nos melhores dias, uma calçada antes da efusividade. Ou talvez sejamos felizes, porém felizes devagarzinho.
Não sei o que lhe disse quando ela me soltou essa pérola filosófica bem antes do jantar, entretanto sempre digo que felicidade é um troço que depende continuamente da expectativa. Gente que espera muito de tudo tende sempre a se frustrar. A felicidade, então, habitaria na supresa. Esperamos o nada ou até o pior e – voilà – acontece algo inusitado e nos alegramos. Ou será que a felicidade só pertence ao passado? Eu já fui feliz, contudo talvez nem soubesse. Ou só me esqueci das lamentações desse passado pretensamente feliz e o ressignifiquei nas minhas memórias? A raça humana, talvez por necessidade de pertencimento, é afeita a gourmetizar as próprias reminiscências.
Gente, por exemplo, é indústria de decepções. Seja gente alheia, seja gente própria, ou o famoso “eu mesmo”! O outro costuma nos ser favorável apenas quando deseja algo de nós. Por isso a maior prova de lealdade ocorre sempre quando nos negamos a fazer o que alguém deseja. Incondicional, portanto, é um amor extremamente raro. Caso exista. O que fazer então? Esperar menos das pessoas. Elas são apenas aquelas que são e… quer saber? Você e eu não somos assim tão nobres quanto costumamos achar que somos e tão diferentes assim dos demais. Logo, sejamos adultos e racionemos essa expectativa. Se nem eu mesmo consigo ser generoso comigo, como posso cobrar essa ação de outrem?
A verdade é escrevo para dizer tudo isso, de forma mais objetiva e linear possível, para a mulher que amo. Para que ela sofra menos, porque sempre se entrega muito para tanta coisa e tanta gente. E digo para mim mesmo, porque, mesmo sabendo de todas essas mazelas faz tempo, tem vez que ainda me esqueço e dou com os burros, e tudo mais, n’água.
A Vida é boa, mas é ruim.
Exatamente como somos.

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