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Michelângelo, o imoral

17 de junho, 2021 - por Max Franco

“Chamamos de Ética o conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão olhando. O conjunto de coisas que as pessoas fazem quando ninguém está olhando chamamos de Caráter.” (Oscar Wilde)

O “terraplanismo” invadiu também os campos da Arte-Educação? 

Arte e Moral não batem de frente apenas recentemente. A verdade é que esta disputa ocorre faz centenas de anos (talvez milhares). Uma das arengas mais famosas teve como protagonista nada mais, nada menos do que o próprio, apelidado de “divino”, Michelângelo Buonarroti. Mesmo sendo um artista que transforma a expressão “monstro sagrado” em algo pequeno, Michelângelo, que já em vida, granjeava o renome de consagrado, teve lá seus problemas quando suas obras eram questionadas pelas línguas ferinas da crítica.

Conta-se que Michelângelo teria colocado entre os condenados ao inferno, certo Biagio di Cesena, o mestre de cerimônias do Papa III, que costumava censurá-lo pela quantidade nus pintados na Capela Sistina. Há quem diga que o mestre de cerimônias também se incomodava muito com a vultosa soma que era paga ao artista e com a demora da obra. Em resumo, ele infernizava o pintor. Michelângelo não poderia ter se vingado de maneira mais criativa, pois ele personifica o sujeito apelando para a figura mitológica de Minos, com orelhas de burro e uma cobra enroscada em seu corpo e mordendo seus testículos.

As más línguas ainda dizem que o tal Biagio teria se queixado ao Papa, o qual, também, não dispensou seu secretário de algum sarcasmo:

– Michelângelo o colocou no inferno? Desculpa, não tenho como interferir. O Papa não tem jurisdição alguma no inferno!

Michelângelo, entretanto, não teve que enfrentar apenas esta crítica, afinal, mesmo depois de morto, a sua obra continuou suscitando polêmicas porque muitos religiosos se incomodaram com a maneira como Michelangelo misturou representações cristãs com ícones de outras mitologias, além de reagirem com ira bíblica à quantidade de corpos nus presentes no seu Juízo Final. Foi por causa disso que, anos depois, diversos pintores interferiram nos afrescos a fim de vestir os personagens que estavam nus na pintura. Foi apenas na restauração realizada na década de 1990 que 15 desses “paninhos” foram retirados, reparando desta forma um sacrilégio muito mais grave do que qualquer atrevimento cometido por Michelangelo nessa que é uma das suas maiores obras-primas.

Minos no inferno

Mas, se lhe eu lhe dissesse, caro leitor ou cara leitora, que não parou por aí, você acreditaria? E se eu lhe contasse que – mesmo depois de 500 anos – a obra de Michelângelo poderia ser interpretada como imoral, você conceberia esta possibilidade?

Pois foi exatamente o que me relataram algumas professoras do ensino fundamental de escolas de São Paulo na aula da semana passada da disciplina que ministro de “Storytelling”, na pós-graduação de metodologias ativas pelo IBFE.

O fato reportado pelas professoras foi a censura realizada por diversos pais de determinada escola porque a professora teria trazido para a sala de aula uma foto do célebre “Davi”, de Michelângelo. Pasme: estes pais se incomodaram com a nudez da estátua e, por isso, ela devia ser representada apenas “da cintura para cima”.

-Mas e o “Homem Vitruviano” , de Da Vinci? – perguntei atônito.

– Também!

– As “Banhistas”, de Renoir?

– Jamais!

– Modigliani?

– Cruz-credo!

– A “Origem do mundo”, de Coubert, nem pensar?

– Nem fale nisso!

– Não me diga que “A criação de Adão”?

– Cintura para cima!

– Eu me nego a acreditar! – disse estupefato.

– Pois está exatamente assim. – disseram as professoras.

Trabalho em Educação faz mais de 30 anos e não é a primeira vez que me deparo com este naipe de patrulha moral. Como professor de Literatura, já enfrentei questionamentos veementes às obras de Jorge Amado, ao “Cortiço”, de Aluísio de Azevedo; “Menino de engenho”, do José Lins do Rego; “A normalista”, do Adolfo Caminha; e até contra Monteiro Lobato. Porém – devo confessar – contra obras renascentistas, é uma grande novidade!

As banhistas – Renoir

Cá com meus botões fico ruminando alguns pensamentos que me inquietam. A partir de quando a escola se tornou refém dos pais? O jargão “o cliente tem sempre razão” deveria ser adotado de tal forma pelas instituições de ensino? Será que estes pais fiscalizam o que seus filhos e filhas estão consumindo nos seus aparelhos celulares e computadores com a mesma sanha que o fazem com a escola? A Arte pode mesmo ser tão nociva e deformadora quanto consideram? Quais são os ingredientes que compõem estas atitudes de controle moral? Preconceito, ignorância, fundamentalismo e mais o quê?

Modigliani

Oscar Wilde dizia que “Não há livros morais, nem imorais. Os livros são bem ou mal escritos.”

Já Nietzsche diz que “A Arte existe para que a realidade não nos destrua”.

O grande Mário Quintana, por sua vez, declara no seu Poeminho do contra:

“Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!”

A Criação de Adão – Michelângelo

E eu que sou nada perto destes citados, digo: é muito bom saber que outros tempos virão e que, neste futuro, os babacas nem sequer serão lembrados. Enquanto Michelângelo, Shakespeare, Modigliani, Coubert, Renoir, Da Vinci, Wilde e muitos outros estarão vivos. Ainda vão emocionar, nos nortear e servirão de referência.

Porque há uma enorme diferença entre ética e moral. A moral pertence ao seu tempo. Ela, por isso, é superada, e reescrita.

A ética… Bem, vou chamar Michelângelo para falar de ética:

Há um relato sobre a vida de Michelângelo que traduz bem essa perspectiva.
Dizem que o Divino estava pintando o teto da Capela Sistina, quando o assistente que misturava as suas cores lhe interpelou.
– Mestre, não precisa se deter tanto tempo nesses detalhes. Ninguém vê nada disso daqui debaixo.
– Mas eu vejo. – respondeu o grande homem e continuou a fazer o seu trabalho com esmero de sempre.