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A internacionalização das escolas particulares
18 de fevereiro, 2026 - por Max Franco
A internacionalização das escolas particulares brasileiras
Prof.Me. Max Franco
A internacionalização das escolas particulares brasileiras, convenhamos, virou buzz de corredor. De um lado, atividades “extras” e currículos turbinados; do outro, promessas que brilham no folder. O bilinguismo entrou na vitrine como perfume caro, mas nem sempre fixa na pele do aluno. De tal forma que não é mais incomum de se ver pais e estudantes, cansados do slogan, voltando ao básico: curso de idiomas no quarteirão do lado e intercâmbio no exterior.
Ainda assim, abrir a escola para o mundo é como escancarar as janelas: sai a poeira dos velhos hábitos, entra luz em cantos que a gente nem lembrava que existiam. Mapas sem moldura pedem olhos que enxerguem além do portão e do bairro. Não é perder sotaque; é ganhar passaporte intelectual para circular com sentido.
Paulo Freire já apontava o norte da bússola: “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.” Quando a escola amplia o seu horizonte, o estudante ganha voz, mapa e repertório. A língua vira ponte para o mundo, não muro de contenção.
Mas por que essa corrida pela “internacionalização” pegou fogo tão rápido? Tem sociologia no miolo: elites brasileiras gostam de sala VIP até que ela lota. Quando o comum chega, o exclusivo muda de endereço — do Orkut à rede social da vez. Com universidades públicas mais acessíveis, o “novo raro” passou a ser lá fora. Resultado: programas de dual diploma viraram check-in de aeroporto sem sair de casa. Metade da bagagem é local, metade global, e o aluno desembarca com dois bilhetes. Trilhas bilíngues prometem cérebro ambidestro, piano tocado com as duas mãos. Funciona? Funciona quando partitura, maestro e ensaio conversam entre si. Formar profissionais, portanto, é a ordem do dia.
Na prática, as tendências que decolam têm lastro pedagógico, não só carimbo bonito. Currículos IB (PYP, MYP, DP) chamam o aluno para investigar, argumentar, criar. É bússola, mapa e altímetro na mesma mochila, acompanhando a travessia. O processo importa tanto quanto a linha de chegada — às vezes, até mais.
As rotas Cambridge (IGCSE e A-Levels) afinam inglês acadêmico e pensamento crítico. É canivete suíço para ler paper, cruzar fontes e sustentar ideias em público. Quando o estudante entende entrelinhas, ele deixa de ser turista do conhecimento. Vira cidadão do mundo. Por isso, nas diversas simulações da ONU, laboratórios de diplomacia adolescente, com ética na prancheta, jovens, muito jovens, debatem sobre problemas mundiais: água potável, migração e energia limpa… A retórica ganha bússola moral, a escuta fica mais fina, a escrita, mais responsável. No fim, os alunos saem com menos certezas, mas com ferramentas melhores. Com tais projetos de direitos humanos e sustentabilidade, a busca pela paz global não é apenas um slogan, mas verbo em movimento de corredor. Maria Montessori lembrava: “Estabelecer a paz é obra da educação.”
Os intercâmbios, por sua vez, se multiplicaram. Parcerias conectam escolas, universidades e comunidades em projetos constantes: programas de férias escolares, high school presencial e remoto, competições acadêmicas e esportivas, eventos artísticos e outras iniciativas que não cessam de serem oferecidas nas mais diversas latitudes.
John Dewey já dizia: “Educação não é preparação para a vida; é a própria vida.” Internacionalizar é jardinar com sementes de muitos climas, colheita a cada estação. Às vezes brota surpresa: um TCC nasce de uma carta para a Colômbia. Às vezes vira rotina boa: ler em inglês cedo e debater em português no fim.
Algo pede cuidado, porém: a vitrine cara sem projeto vira manequim sem alma. Formação docente contínua é motor, avaliação integral é painel, inclusão é direção assistida. Inglês fluente não é sinônimo de aluno valioso; projeto com propósito é o que vale. A escola não troca de bandeira; ganha uma rosa-dos-ventos confiável. A internacionalização da escola virou argumento de venda, de atração e fidelização de clientes, mas não obrigatoriamente se transformou em fatos.
Em resumo, internacionalizar é pôr rodas na escola sem arrancar as raízes do chão. É dar bússola ética, mapa cultural e motor de investigação para cruzar avenidas do século. As escolas particulares já estão na estrada, calibrando pneus e ajustando rota. O destino não é “lá fora”; é um aqui mais amplo, arejado, justamente humano.

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