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A Esperança foi contagiada

26 de abril, 2021 - por Max Franco

– A Esperança foi contagiada?

Vírus não tem coração nem empatia.

Se tivesse não teríamos, após mais de um ano de pandemia, tantos milhões infectados e mortos e tamanho prejuízo. Afinal não é só o vírus que mata. A fome e a depressão também são diligentes no ofício de ceifar vidas. O fato é que não dá mais para contabilizar nem sequer para se cogitar os malefícios causados em toda a humanidade pela covid 19.

A situação é ainda mais dramática em alguns países, os quais, por diversos motivos que não serão explicitados neste comentário, se encontram em condições demasiado fragilizadas. O Brasil, por exemplo, é uma destas nações que padeceu e – tudo indica – ainda padecerá bastante sob o jugo desta moléstia cruel. Pelo que é possível se observar, ainda teremos alguns meses de embate contra o vírus, o que, certamente, vai gerar ainda mortes e perdas de toda a natureza.

O que fazer diante de tanto sofrimento? A Esperança também foi acometida pela pandemia? Está debilitada, moribunda ou morreu ligadas aos aparelhos?

Um dos aprendizados que a história da humanidade pode nos trazer é que a nossa espécie demonstra uma especial resistência justamente quando é testada por meio de crises extremas. Além disso, é bastante comum que as sociedades, mais cedo ou mais tarde, não só superem as próprias crises, mas, inclusive, consigam evoluir após diversas tribulações às quais são impostas.

Não obstante, não podemos cair na tentação de simplificar esta ou outra crise atribuindo-lhe “funções”. Tal postura poderia soar como uma instrumentalização das mortes e das dores de milhões pessoas. A questão é que, queiramos ou não, estamos inseridos em um contexto doloroso de uma pandemia. Deveríamos aprender a lidar com esta situação e, melhor seria, se também aprendêssemos alguma coisa para o nosso futuro.

Há motivos justificáveis para que a Esperança seja abandonada à mingua?

Talvez caiba conferir algo dos livros de história para que possamos enxergar a crise atual por outras perspectivas.

Um dos resultados, por exemplo, da Peste Negra que assolou a Europa na Idade Média foi que, ao diminuir a população, ela praticamente definiu o fim do servilismo feudal, pois, depois da grande peste, os senhores precisaram pagar salários para que alguém cuidasse das suas colheitas e do seu gado. Neste caso, a Peste definiu uma mudança profunda nas relações de trabalho e acabou funcionando como uma antessala do mercantilismo e capitalismo.

Sem entrar nos méritos das respectivas atuações, a ONU foi criada após a 2a Guerra Mundial. O SUS brasileiro como diversos sistemas nacionais de assistência em saúde em todo o mundo foram instalados depois da Gripe Espanhola, nas primeiras décadas do século XX. A União Europeia, por sua vez, foi determinada depois da Guerra Fria.

De maneira geral, as grandes crises trazem lições para a humanidade em várias áreas. Estas aumentam o senso de coletividade que podem reforçar as instituições democráticas. Choques econômicos, por sua vez, costumam fortalecer mecanismos de proteção aos bancos e produzir algum grau de regulação do mercado por parte dos governos. Guerras aceleram a produção tecnológica, enquanto grandes epidemias colocam em evidência a questão do acesso à saúde e do desenvolvimento de medicamentos e vacinas.

Quais serão as mudanças perpetradas pela pandemia da covid 19?

Já podemos identificar algumas transformações que ocorreram e que modificaram diversos costumes no cotidiano do homem hodierno. Muitas passam pela transformação digital que foi potencializada pelo advento da pandemia.

Entretanto, não adianta muito falar de “Esperança” apenas pelo viés da coletividade, não é? Afinal, as nossas angústias e ansiedades são – muitas vezes – geradas pelos contextos gerais, que desembocam concretamente em realidades individuais. A verdade é que a minha preocupação com os boletos que insistem em bater à minha porta consegue ser maior do que com o futuro da minha espécie. Além deles, ainda me preocupam as condições de sobrevivência e vivência daqueles que amo e, inclusive, a própria salvaguarda também me ocupa os pensamentos. Como viver em um mundo no qual a segurança, cada vez mais, aparece como um artigo luxuoso que poucos têm?

É neste momento que cai bem ter algumas convicções e, inclusive –  por que não (?)- alguma fé.

Quando falo aqui em fé, falo também da fé religiosa ou espiritual, mas, principalmente, falo  de “potência de vida” e de se fundamentar em princípios mais profundos – diria – existencialistas. Quero deixar claro que não estou falando de conceitos fáceis como “pensamento positivo” ou “autoajuda”. Falo, por exemplo, daquilo que Viktor Frankl tratou no seu célebre  livro que ficou ainda mais atual durante esta pandemia.

Viktor Frankl não teve uma vida fácil. Quando saiu do 4o campo de concentração nazista, pesava apenas 25 quilos. Além de ver a própria mãe entrar em câmara de gás, o holocausto ainda lhe roubou a mulher que amava, o pai e diversos amigos. Não obstante, poucos anos depois, o psicanalista entregou ao mundo a obra que fundou a logoterapia: Em busca de sentido.

Eis alguns fragmentos do pensamento de Frankl:

Tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto uma coisa: a liberdade de escolher sua atitude em qualquer circunstância da vida.

– Quando a circunstância é boa, devemos desfrutá-la; quando não é favorável devemos transformá-la e quando não pode ser transformada, devemos transformar a nós mesmos.

-Nada proporciona melhor capacidade de superação e resistência aos problemas e dificuldades em geral do que a consciência de ter uma missão a cumprir na vida.

Ninguém tem o direito de praticar injustiça, nem mesmo aquele que sofreu injustiça.

Tendo como referência a vida e a obra de Viktor Frankl, não dá para lhe atribuir outra designação que não concorde com o conceito de “ser humano elevado”.

Para Fernando Pessoa, “Eu sou eu e minhas circunstâncias”.

Para Frankl, eu sou o que decido fazer com as minhas circunstâncias. Não são elas que me definem.

Então, a Esperança foi contagiada?

Podemos temer a Sua Morte?

Podemos.

Mas se a Esperança não morreu para Frankl e para muitos outros que viveram e superaram obstáculos tão grandes ou ainda maiores do que estes que agora vivemos, também pode se manter viva para nós.