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Tempo, Energia e Dinheiro, e o storytelling

03 de abril, 2026 - por Max Franco

Há três moedas que usamos para conquistar o que desejamos: tempo, energia e dinheiro. O que estes três recursos têm em comum? São finitos e insubstituíveis. Afinal, quando gastamos dinheiro, inclusive para obtermos mais tempo, energia e dinheiro, podemos até, a posteriori e consequentemente, ganhar mais dinheiro, porém não será o mesmo. Dinheiro – como diz a antiga música – é vendaval. Podemos empenhar nosso tempo com qualquer objetivo, mas não obteremos de novo o tempo gasto. Todo tempo é novo! Como também se destinamos energia e dedicação a qualquer realização, não as recuperaremos jamais. Teremos – quem sabe e com alguma sorte – mais energia lá na frente e a usaremos em outras atividades. Ninguém, portanto, tem tempo, dinheiro nem energia intermináveis. Mas o que diabos o storytelling tem a ver com isso?A resposta a essa pergunta não é simples nem fácil, por isso peço que siga o meu raciocínio (empregando algo do seu tempo e energia, mas de forma gratuita, quando se fala em dinheiro!).

Sabemos que o storytelling é um método de persuasão e relembro: storytelling não meramente “contar histórias”, mas contar histórias para algo, com intencionalidade. Machado de Assis não fez uso do storytelling quando escreveu Dom Casmurro, porque Literatura é uma coisa e Storytelling, outra. A verdade é que todo storytelling é algo storyselling, porque a intencionalidade de quem conta a história se utilizando da técnica é sempre que o outro faça alguma adesão. Qual adesão deseja a Literatura? No máximo ser lida. Machado não desejava convencer o seu leitor a fazer nada, ou a gastar nada. O bruxo não queria fazer nenhuma catequese nem nos persuadir a votar em ninguém. Isso é complexo e polêmico? Decerto, pois alguém poderia alegar que toda história tem sempre uma nota de convencimento, porque, no mínimo, quero que alguém a companhe, leia ou escute, bem como quero que alguém compre o livro ou assista à novela, logo nenhuma história seria isenta de intenções. Não haveria, então, aquela máxima tão celebrada da “arte pela arte” ou da “história pela história”. Para Roland Barthes, por exemplo, todo discurso é tentativa de convencimento. Afinal, no contexto de sua análise semiótica e crítica dos mitos modernos, a linguagem raramente é neutra; ela é, na maioria das vezes, um instrumento estruturado para significar algo, e esse “algo” geralmente envolve a naturalização de uma ideologia, ou seja, uma tentativa de convencimento. Porém, aqui, por razões estritamente didáticas, vou eleger conceito da história com intencionalidade, porque geralmente quando alguém nos conta uma história, ele quer algo de nós e este algo, na maioria das vezes, é nosso tempo, energia ou dedicação e, principalmente, nosso dinheiro. Para isso, antes de tudo, a nossa confiança.

Você considerou essa afirmativa muito azeda e pisando na calçada do cinismo? Pois vamos lá: tente se lembrar das vezes que essa ideia não se encaixa. Recorde-se, por exemplo, das aquisições que fez. Alguma não está fundamentada em confiança? Você comprou produtos e serviços baseado em quê? Por acaso, foram em histórias ou na sua memória, a qual, por sinal, é outro manancial de narrativas? Quantas foram fundamentadas em dados? Pois é para isso que o storytelling foi concebido: para contar histórias que gerem confiança. São os cantados em verso e prosa gatilhos emocionais que suscitam todo tipo de tomada de decisão.

Como ilustração (e storytelling) para sublinhar essas palavras, vamos nos lembrar de um caso que ficou famoso no mercado farmacológico. Alguém se recorda de um célebre biotônico que muitos pais zelosos administravam aos filhos pequenos para abrir o apetite? Pois a fórmula original continha cerca de 9,5% de teor etílico, quantidade superior à de muita bebida alcoólica. As mães o faziam por um motivo básico: elas confiavam. E confiavam porque acreditavam na narrativa da indústria. Fatos são fatos e narrativas, narrativas. Fatos estão nas bulas. Narrativas, nas bocas. Mas quem lê bula?

Existem mais de 7 bilhões de pessoas habitando esse planeta este planeta confuso e todas têm diversas crenças. Tantas destas crenças foram urdidas de multiplas maneiras. Algumas, inclusive, são oriundas de fatos, mas a maioria destas acreditanças é de natureza muito mais tênue. São superstições, preconceitos, mal-entendidos, enganos, desconfianças, fobias, teorias da conspiração, inverdades e muitas (muitas e muitas) mentiras sem o menor cabimento. E inúmeras decisões e adesões são feitas a partir destes equívocos. Sem falar de tantos viéses cognitivos, efeitos bolha, Mandela, Dunning-Kruger, dissonâncias e das onipresentes fake news… tudo superlativamente impulsionado pelos algoritmos das redes sociais. É mais fácil encontrar a tal agulha no palheiro do que a verdade no século XXI. De tal forma, que quando a encontramos, nem sequer a reconhecemos. O marketing e a publicidade também têm seu papel nessa ópera, são os irmãos siameses do storytelling, uma família muita unida; mas dizem que a máfia também é.

O que querem, então, de nós por meio dessas histórias? Você já sabe: tempo, energia, dinheiro. Muitas vezes, todos juntos e empacotados para presente. O que usarão para convencê-lo a doá-los, muitas vezes, alegremente? Contarão histórias e você acreditará nelas.

Para finalizar e abrir o apetite, que tal um bom drink de biotônico?

#storytelling