Quem ama cuida

12 de outubro, 2016 - por Max Franco

 

Ele era um sujeito estranho. Era de palavras econômicas e menos sorrisos ainda. Era nosso vizinho do lado direito do nosso apartamento. Do lado esquerdo, era um casal de paulistas. Quase nunca os víamos, mas os ouvíamos sempre porque brigavam muito.
Eu e a minha irmã não tínhamos muito o que fazer no nosso pequeno apartamento. Então, a gente descia para o playground. Na realidade, a gente chamava de playground uma pequena área cimentada que ficava diante do estacionamento. Ali pelas 4 da tarde, o sol já tinha baixado e tínhamos uma fatia de sombra para as nossas brincadeiras. Era nessa hora que a gente topava com o “Seu” Joaquim.
De princípio, não foi a relação mais amistosa do planeta. Ele claramente se aborrecia com a nossa barulheira. Seu Joaquim parecia amar apenas duas coisas, o seu carro, que estava sempre limpando, lustrando, acariciando e livros. Um dia que pensei que ia apanhar foi quando Mariana acertou de cheio os seus óculos com a nossa bola. Não quebrou por pouco. O homem bufava de raiva.
Mas de tanto conviver, as coisas foram melhorando. Principalmente, com a Mariana. Realmente, não dava para desgostar da menina de 9 anos. Mariana sempre foi espaçosa, sorridente e com o botão da timidez desativado. Acho que a única pessoa do mundo que conseguia arrancar sorriso do velho solitário era ela. E não só sorrisos, mas também chocolates e livros. Seu Joaquim não só gostava de lhe contar histórias, mas sempre nos trazia gibis e livros. Eu também ganhava, mais por consideração que por amizade. É que não dava mesmo para competir com a minha irmã caçula.

Até que ela adoeceu. Não sei bem o que teve, eu também era muito jovem naquela época. Acho que meus pais não quiseram alarmar o filho que só tinha 12 anos. Sei, porém, que ela estava internada hospital durante vários dias. Fui visitá-la apenas uma vez e saí do hospital chorando litros, porque Mariana, que era a luz alegre do mundo, era um arremedo do que fora um dia. Mal falava, mal abria os olhos. Estava cinza. Por mais que meus pais tentassem me poupar, não dava para esconder o desespero que sentiam. Eu sabia que a minha irmã estava por um fio.
Seu Joaquim a visitava todos os dias e lia histórias para ela. Meus pais gostavam da dedicação do velho. Era de emocionar.
Não demorou muito e Mariana piorou bastante. A solução que se apresentava era incerta, mas única: ela devia ser operada imediatamente. O problema é que tinha que ser uma cirurgia paga, porque se fôssemos apelar para a saúde pública não daria mais tempo. Mas quem é que tinha dinheiro para a operação? Acho que nunca vi meus pais chorarem tanto.
De uma hora para outra, tudo mudou. Descobrimos que a operação havia sido paga por um estranho, que incógnito pagou tudo à vista. Na verdade, o anônimo fez um plano de saúde para ela e – incrível – também para mim.
Ninguém pode imaginar a alegria que todos sentimos quando, um mês depois da cirurgia, levamos Mariana para casa. Não demorou muito para ele retomar a cor e o humor, a ser a Mariana de sempre.
Só anos depois descobrimos quem tinha sido o nosso benfeitor. Ele nunca se acusou. Descobrimos porque a sua irmã nos contou. Seu Joaquim havia usado todas as suas economias para pagar a cirurgia da Mariana e  também o nosso plano de saúde por anos. Ficamos impressionados com a sua generosidade. Ainda mais quando soubemos que, para isso, ele tinha aberto mão do seu amado carro. Isso mesmo: ele foi capaz desse sacrifício. Olha o que as pessoas são capazes de fazer quando amam.

Quem ama, de fato, cuida.