Dos vícios nossos de cada dia

20 de dezembro, 2016 - por Max Franco

Todo mundo tem seus vícios, eu afirmo. Na verdade, se você quiser um sujeito, conheça seus vícios. Não há nada mais interessante numa pessoa do que eles.
Não estou falando daquele vício autossabotagem, de natureza degenerativa e prejudicial, mas daqueles pequenos vícios diários, manias, costumes, aquelas práticas cotidianas que nos definem. Aquilo que faz com que lembrem de você. “Sabe, João, estava viajando e vi aquela barra de chocolate. Chocolate é igual a João, não é? Não resisti e lhe trouxe de presente.”
No meu caso, o vício é o café. Tanto que, num dia desses, cheguei a uma conclusão quase aterradora: a única coisa que necessito diariamente é café. Já passei dias sem comer, sem beber água, sem ver meus filhos, sem trabalhar, sem me divertir, sem as pessoas que amo, sem dormir, sem um bocado de coisas. Mas, não me lembro do último dia no qual não tomei café.
Sou convicto também de que café não faz mal algum. Se fizesse, depois da quantidade que costumo ingerir por dia, eu já estaria morto e enterrado.
Nestas minhas jornadas, já provei todo tipo de café: bebi café com rum, com uísque, doce de leite, leite condensado, capuccinos de todos os jeitos, até o que não era capuccino, café quente com gelo (é tão ruim quanto parece) café gelado, frapuccino, trapuccino, café sem cafeína (uma desgraça), café aguado dos EUA (outra),  e comi café turco (porque aquilo é para se comer!). São anos de estrada e anos de café. Café é a única coisa que não nego, nunca.
Como adicto, acabo conhecendo todos os melhores lugares das várias cidades nas quais estive para tomar um bom café. E, claro, também acabo colecionando algumas histórias dignas de nota sobre este feliz hábito.
Certa vez, em Dublin, estava bebericando meu café com uísque para aplacar o frio, quando vi uma moça bonita e (claro) ruiva sair da sua mesa e mudar-se para outra. Estiquei o ouvido para entender melhor a situação.
– Vejo que você vem todos os dias por aqui. – iniciou a moça falando com o rapaz de óculos escuros. – Percebo que você vem exatamente na hora em que frequento a cafeteria e fica olhando para mim. Por que nunca fala comigo e fica só me encarando?
– Acho que você está enganada. Eu nunca fiz tal coisa.
– Como assim não fez? Você não vem aqui praticamente todos os dias?
– Claro que venho. Eu trabalho aí na frente…
– E não fala comigo por quê? É tímido?
– Não, moça, sou cego!
Nietzsche dizia que a vida seria um erro sem música. Eu sou bem mais materialista do que o filósofo e, por isso, necessito de mais elementos. Eu diria que seria sem música, livros,  filmes, futebol, bons pratos, um vinho decente, pessoas queridas e, é claro, um bom café, a vida seria um tremendo equívoco.
A vida, por sinal, só vale a pena se for servida como um bom café, forte e algo doce.