As cinco pedras

21 de setembro, 2016 - por Max Franco

 

Eram cinco pedrinhas na prateleira.

Às vezes, me ocorre de ficar cismando, cismando, até que entenda com o que cismei. Hoje, por exemplo, entendo que as coisas não são apenas o que são. Na verdade, talvez nem importe tanto o que são, mas o que pareçam ser. O valor é um conceito atribuído e não absoluto. Nada ou ninguém é somente o que é, mas o que se enxerga.

Pois para mim, aquelas pedrinhas sem nenhum valor aparente, sem nenhuma característica especial, valiam mais que ouro. Ou diria: não as venderia por nada.

A primeira era a menorzinha. Catei na minha primeira grande viagem. Eu e meu pai fizemos um mochilão, só os dois. Era o meu presente de 15 anos. Eu não quis festa. Festa dura horas. Viagem dura dias, e vários anos na memória.  Viajamos por 15 dias, “um dia por ano”, era a ideia. Fomos para São Paulo, Rio e terminamos em Minas Gerais. Achei essa pedrinha numa mina em Ouro Preto e a levei como lembrança. Hoje, não tenho mais meu pai, mas tenho ainda aqueles dias. Foram dias felizes e dias felizes merecem souvenir.

Achei a segunda quando estava na faculdade. Foi uma viagem para um congresso em Salvador, mas a gente deu uma fugida e foi curtir uma praia. Nós nos sentamos na areia para ver o pôr do sol, eu e ele. Não foi paixão à primeira vista, porque já estudávamos juntos há anos. Porém foi paixão ao primeiro pôr do sol. Uma paixão que virou amor e momentos maravilhosos.

A terceira pedrinha eu não achei, na verdade, ela me achou. Era a nossa Lua de mel, estávamos fazendo uma trilha na Chapada Diamantina e ela, faceira, se meteu na minha sandália. Eu ia jogá-la fora, mas ele não deixou. “Essa pedra quer ir embora!”. Entendi o que ele quisera dizer, que era uma pedra viajante e decidimos ajudá-la na sua migração. Há anos está ali, bem acompanhada, sempre à vista, na prateleira favorita.

Encontramos a quarta quando fizemos a nossa última viagem juntos. Ele já estava bem doente, porém sempre foi o seu sonho conhecer a Europa, em especial a Itália, a Grécia e a Turquia. Meu amor gostava dos clássicos. Apesar de tudo, fomos muito felizes naqueles dias. Ele colheu a pedrinha no Coliseu e me mostrou no avião. “É para a nossa coleção!”. Ele disse sorrindo. “Esta pedrinha foi testemunha da história. Deve ter visto gladiadores!”.

A última, peguei na Grécia. Fizemos um cruzeiro, eu e o Victor Filho. Fomos atirar as cinzas no pai no Mar Egeu, como ele tinha pedido. “Quero ficar perto dos deuses”. Foi uma pedra banhada pelo mar e pelas lágrimas, contudo, mais uma lembrança das descobertas e das emoções vivenciadas em outras terras e em outras épocas. Terras, mares, rios, pedras… Lugares? Mais que lugares, sonhos. Sonhos vividos, ainda vívidos. Sonhos sonhados com gente querida. Sonhos que fazem a vida valer a pena, por causa de tudo, apesar de tudo. O Tempo me subtraiu os homens que amei, mas não me privou do patrimônio da memória nem sequer do Amor que tive e ainda tenho por eles.

Se até pedras podem conter tanta emoção, imagina o coração humano!