A grande Babel

24 de maio, 2018 - por Max Franco

Deus não ficou feliz com a torre. Estava ficando alta. Demasiado alta.  Já dava para sentirem o dulcíssimo aroma dos  dos jardins celestiais. O Senhor, decerto, não aprovaria a vizinhança, o som do funk ecoando nas paredes dos palácios, o cheiro de churrasquinho de gato, o lixo espalhado pelas calçadas polidas pelos querubins.
Deus, na sua sabedoria, não cogitou. Teria que por fim ao famigerado arranha-céu. Entretanto, desta vez, não faria uso de tsunamis, raios ou labaredas, nem sequer Camargo Correa ou Odebrecht. O onipotente preferiu uma solução delicada, quase sofisticada para embargar a tal obra pré-faraônica.
Deus fez com que as pessoas não se entendessem. Embaralhou as línguas. E como não havia wizard nem fisk, a obra parou. Falta de verba? Não. Excesso de língua.
Observando o bizarro cenário nacional das atualidades, fico pensando se Deus não deu uma passadinha por aqui. Afinal, absolutamente ninguém se entende.

O que mais me surpreende não é a canalhice perpetrada por quaisquer dos lados envolvidos. Porque, é claro: são gangues que disputam o poder. Poder e grana corrompem gente desde que gente é gente. O que mais me surpreende é a paixão. Cada lado lutando ferreamente, brigando com família e amigos, providenciando cada fiapo de argumento customizado para (se) convencer e convencer os outros.
Mas tudo é cristalino: nenhum dos lados que disputam trono de ferro o merecem ou são capazes de ocupá-lo. Nenhum inspira confiança. Nenhum presta. Nenhum mereceria esta devoção ferrenha que alguns demonstram ao apoiá-lo.
A eterna arenga não leva a nada, a não ser à cacofonia crônica, à caixa de reverberação, à babel eterna.
Precisamos de alguém digno do cetro que quer empunhar.
Nenhum dos sujos e mal lavados que temos no ringue nesta rinha desprezível merece tanta fé, ou alguma.
Temos que fazer algo.
Deus, por sua vez, deve ter dicionários à mão procurando as melhores traduções…