Sobre o amadorismo

30 de julho, 2016 - por Max Franco

O dia dos pais se aproxima. Bela ocasião para postar uma antiga crônica.

 

A paternidade permanece a maior reserva isolada de amadorismo. (Alvin Toffler)

 

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Nascer é estrear uma peça sem saber qual é o seu papel nem as suas falas.

Afinal, quando nascemos, não estamos preparados para nada. Somos principiantes essenciais. Não sabemos nos defender, não discriminamos o que é sadio do que é nocivo, não dominamos bem os movimentos do nosso corpo, não elaboramos pensamentos muito congruentes, nem sequer conhecemos palavras. Somos calouros no mundo. E como todos os calouros, somos trouxas.

Posteriormente, também não estaremos devidamente preparados para muita coisa. Não saberemos como é entrar na escola, na faculdade e no mercado de trabalho. É o problema do recruta ou do noviço: excesso de novidade. O fato é que não estamos preparados para nada.

E, especialmente, ninguém está preparado para ser pai.

É que pai se aprende a ser sendo, ou não se aprende. Porque, por mais que se tenha ansiado por esta função, nunca dominamos todos os movimentos dessa atividade. Ainda mais o homem, já que mulher tem vantagens. Primeiro pelo fator tempo. Afinal, ela partiu nove meses à nossa frente. Mulher se torna homeopaticamente mãe. Pai é coisa abrupta. Pai já chega atrasado.

A outra, está no corpo feminino que se molda à maternidade, enquanto o nosso será (mal) esculpido, geralmente, por elementos menos nobres.

Para nós, os homens, as diferenças são, além de mais tardias, mais discretas, porém, ao mesmo tempo, não menos revolucionárias. Porque filho, convenhamos, altera tudo.

Quando ela nasceu, bem me lembro, me bateu um misto de júbilo e desespero. Não sabia, nem sei hoje, qual sensação pesava mais na balança até que saí do hospital com aquela trouxinha pequena, rosada, morna e úmida nos braços. Porque, ali, naquela hora, com certeza, o que imperava era um crescente pesar pelo distanciamento da experiente enfermeira – divina e onisciente – que tínhamos ali do lado e, é claro, o medo. O grande e poderoso medo.  Medo de fazer tudo errado, de por os pés pelas mãos, de trocar a fralda, de não trocar a fralda, de fraudar a troca, do refluxo, e agora do fluxo, da cólica e da cólera, de deixar cair, De levantar com força, da moleira mole, da manchinha na pálpebra, da febre noturna, e, principalmente, da minha imensa, incomensurável, falta de experiência.

Quando ela chorava, era ainda pior. Eu me sentia num profundo estado de inadequação. Mãe é toda aparelhada para acalentar bebê. Enquanto a gente… O que fazer? Cadê o manual de instrução? Cadê a enfermeira? (Acho que nunca me adaptei, realmente, à falta daquela enfermeira…)

É nesse tipo de momento em que se acredita que depressão pós-parto não distingue sexo.

Ser de primeira viagem é sempre complicado. Pai, ainda mais.  E, na verdade, pai é sempre um pouco novato, porque outro filho é outra história. Não dá para fazer uso contínuo das antigas estratégias. São muitas variáveis. São diversas variantes até com o mesmo filho, que está em permanente mutação, ainda mais com outro filho.

É sempre bom ter a tiracolo alguns fundamentos pedagógicos, algumas teorias psicológicas ou certas experiências alheias. Não obstante, no cotidiano, só tem um jeito: pai se aprende a ser sendo, meio de improviso, meio no susto, todos os dias, na verdade, todo tempo, já que não se tira férias de paternidade.

Meus filhos me ensinam, a cada dia que passa, a me tornar um pai e um homem melhor. (E bem sei como preciso de todas as melhoras possíveis!). Eles me ensinaram principalmente, a amá-los incondicionalmente. Talvez, o único amor incondicional que exista sobre a face da Terra.

Porque se aprendi uma coisa nesta vida é que sempre se pode – e deve – aprender. Aprendemos sempre muito mais que ensinamos.

Aprendemos tudo o tempo inteiro.

Quisera, porém, antes, ter aprendido mais.

Mas, para alguns, por exemplo, para mim, antes foi depois, e bem depois. Mas, que seja não mais depois, e – sim – agora. Sempre. Até o último dia.