A Honda e o storytelling

06 de junho, 2017 - por Max Franco

 

– … Por causa da crise… – disse o diretor de marketing.
– Nestes meses de crise…- falou o financeiro.
– Quando acabar este período crítico. – previu a gerente de RH.
– Basta! Basta! Se eu ouvir mais uma vez a palavra “crise” ou algum derivado, – interrompeu o CEO da grande empresa. – Eu juro que terei uma crise de nervos. Não! Na verdade, alguém terá. Não há outra palavra que possamos usar aqui?
– Armando teve como resposta a mudez de todos à mesa.
– Pois vamos fazer uma coisa: escrevam neste papel a palavra “crise”, vamos. Isso! Agora, quero que cortem a segunda sílaba. Perfeito! – Ninguém aqui deixou de fazer o 1o grau. Restou o quê?
– Cri. – falou André, o diretor de TI. – Ficou o “cri”.
– Isso! Agora quero que adicionem outra palavra a esta sílaba.
– Outra palavra? – perguntou Ana, a vice-presidente.
– Exato, Ana! Você consegue!
– Criação. – disse um, satisfeito pela descoberta.
– Criatura! – soltou outro. – “Atura” é um verbo, não é? Verbo é palavra, ora!
– Criatividade! – falou Amanda, a gerente de RH, toda animada com a descoberta.
– Exatamente, Amanda! – revelou o presidente. – Precisamos customizar esta crise como fizemos com a palavra. Criar algo a partir dela. Não participar dela, como decretou o Walmart. Temos que transformar a crise em oportunidade. E só se faz isso com muita dedicação, criação e atividade. Em outras palavras, com bastante criatividade.
– Desculpa, Dr. Armando, – interrompeu a VP. – Mas, acho que o poço secou e não enxergo como podemos “fabricar” esta água…
– Ana, vou lhe contar uma história para lhe mostrar que podemos, sim, “fabricar” água. Vou lhe contar a história de um sujeito que só dava com a cabeça na parede. O nome dele era Soichiro. Isso! Ele era japonês e japoneses têm mesmo nomes diferentes.
– Ele era azarado? – perguntou André.
– Podemos dizer que sim e que não. A vida, às vezes, também nos sabota ou promove. Parece que tem vontade própria. Mas, os maiores boicotadores da nossa vida, geralmente, somos nós mesmos. No caso de Soichiro, podemos dividir a responsabilidade. A sua vida não foi fácil! Ele era um cara inquieto e criativo. Ele tinha 8 anos e já havia construído uma bicicleta. Aos 13, possuía várias pequenas “invenções”. Aos 16 anos, ele se torna aprendiz, em Tokio, numa oficina mecânica. Não demora muito e ele volta para Hamamatsu para abrir a própria oficina.
– Shoichiro era um mecânico, então? – perguntou Marcos, o diretor financeiro.
– Sim, praticamente autodidata. Mas, não era um sujeito obstinado. Ele trabalha dia e noite e até dorme na oficina. Para poder manter o negócio, ele chega a empenhar as jóias da mulher. Porém, mesmo depois de tudo isso, ele mostra o resultado final do trabalho a uma grande empresa e lhe dizem que o seu produto não serve para nada. Soichiro desiste? Não. Ele tenta mais e mais. Após dois anos, a empresa que o recusou, finalmente, fecha contrato com ele. Mas aí a fábrica é bombardeada duas vezes, durante a guerra. E grande parte dela é destruída.
– Nossa! – disse Ana.
– Soichiro, então, desiste? Não! Na verdade, ele reconstrói a sua fábrica. Porém, vem um terremoto e novamente a arrebenta. É o fim para Soichiro? Não, meus amigos! O sujeito mais uma vez se reinventa. Imaginem como estava o Japão depois da guerra. O japoneses estavam arruinados, humilhados e desesperados. Imediatamente após a guerra, há, inclusive, uma grande escassez de gasolina e este homem não pode sair de automóvel nem para comprar comida para a família. Então, ele apela para quê? Ele une a criação à atividade e adapta um pequeno motor a sua bicicleta, conseguindo, assim, sair às ruas. Os vizinhos ficam maravilhados com a sua invenção e todos querem também as chamadas “bicicletas motorizadas“. A demanda pelo produto cresce tanto que, logo, ele fica sem mercadoria. Soichiro, então, ousadamente, decide montar uma fábrica para essa nova invenção. Sabemos que, hoje, a Honda Motor Company é um dos maiores impérios da indústria automobilística. É uma marca respeitada em todo o mundo. Tudo, porque o Sr. Soichiro Honda, seu fundador, não se deixou abater pelas terríveis crises com as quais se deparou pela frente.
– Uau! – soltou Ana. – Juro que não reclamo mais!
– Isso mesmo! – disse o presidente. – Vamos usar o nosso tempo, a nossa energia e o nosso trabalho para produzir, encontrar saídas e soluções inovadoras. É mais uma questão de se ocupar do que de se preocupar. Vamos à luta! Transformemos as palavras. Elas têm força, sabiam? Palavras têm uma força avassaladora!