Rio, de mim

22 de abril, 2016 - por Max Franco

 

O Rio de Janeiro continua lindo…” (Gilberto Gil)

 

Kings of convenience pulsando delicadamente nos ouvidos. Já havia garantido carícias sonoras, faltavam as visuais. Não tardaria, estava no Rio de Janeiro. E, como se sabe, O Rio é sempre generoso aos olhos.

Na mente, a música tema do amigãozão ininterrupta machucando o meu nervo sensível da saudade. Meu filho, quando canta “meu amigãozão” contagia o mundo de alegria. Nada mais pode ser triste, cinza ou deprimido ao acompanhar as notas altas da sua risada.

Na barriga, pesando mais do que devia, café de manhã de hotel. Há incentivo maior para a gula? Habitueès de hotel são gordos, decerto.

No coração, tudo.

Tudo mesmo. Acumulado. Empilhado. Largado à revelia por todos os cantos. Desejos misturados com remorsos. Sonhos emaranhados nos fios embolados das decepções. Fragmentos esparsos de mil e uma lembranças atiradas no chão de expectativas, tantas vãs, tantas vãs. Tudo junto, aqui, agora, ontem, hoje e amanhã. Tudo claramente confuso. Ou confusamente claro. Sei lá. Tudo é tão louco hoje em dia. Antes, eu ignorava pacificamente. Hoje, ignoro contrariado, e bestificado assisto levianamente ao que as minhas retinas um dia se assustaram a assistir.

Resignado, infelizmente, bem mais do que indignado.

Mas, lá está o Cristo com seus braços alados, quem sabe, pronto para alçar vôo e deixar de vez esse mundo de ódio, ignorância e intolerância vigentes. Lá está Copacabana, mais onipresente do que Deus em tantos versos e canções dos poetas, músicos, bêbados e de bêbados que se acham poetas e músicos só porque são bêbados. Lá está o Pão de açúcar, imponente, mas, certamente, revoltado com o nome ridículo com o qual lhe batizaram, ainda mais nessa época onde tudo tem que ser light. Lá está o turista estrangeiro, identificável já pela meia social na altura da canela, tênis, bermuda e camisa florida. Kit turista desavisado completo com a cara untada de protetor solar e máquina fotográfica de 200 megapixels pedindo ladrão pendurada no pescoço. E aquele olhar esticado para as negrinhas púberes de bunda grande e canelinhas finas catando clientes no calçadão. Tudo está lá. Há tanto tempo que nem sei.

Agora é o Simply red que me acaricia os ouvidos. Me animou um pouco mais. Estou já quase suportando a minha condição de humano, a qual, querendo ou não, me assemelha a todos a esses bípedes portadores de aparelhos celulares que trombam nas ruas diuturnamente.

Ah, lobotomia, onde te encontro quando mais preciso?

Não me suporto nesses dias de melancolia cevada. Fico me considerando arrogante e detesto me sentir arrogante. E nada mais arrogante do que aquele que acha que sabe de alguma coisa. Afinal, ocorre sempre de acharmos que sabemos de algo e depois descobrirmos que não sabíamos era de nada.

Mas, de algo posso dizer que sei. Sei que morei no Rio entre os 2 e os 7 anos. Migalhas de memórias desconexas ficam todas à deriva na minha mente quando espremo o cérebro a fim de lembrar desse pretérito tão passado.

Lembro da face mãe zelosa, do choro do irmão pequeno, do cheiro enjoado que exalava do meu pai, que depois descobri que era de cachaça. Lembro do Capitão Asa na tv em preto e branco, dos palitos de picolé de plástico jogados nas arquibancadas do Maracanã, das máscaras assustadoras das fantasias de carnaval, dos desenhos feitos de canetinha no Colégio Patinho Feio onde treinei tanto a música para o dia das mães que, no dia da homenagem, estava rouco demais para cantar. A cabeça recorda menos que a alma.

Pois as coisas estão todas lá, amontoadas sobre as prateleiras. Algumas são troços pesados. Outras, bibelôs decorativos, souvenires engraçadinhos e porta-retratos simpáticos.

São as águas revoltas que traz o Rio. Rio onde, um dia, naveguei meu modesto barquinho e de onde, hoje, parto. Na mala, trago tudo. Resoluto.

Novas músicas a caminho nesse meu caminho onde nem sempre rio.