O veterano

03 de março, 2019 - por Max Franco

Leandro era professor veterano. Estava em sala de aula desde o tempo do giz, desde o tempo em que ministrou OSPB e moral e cívica, desde o tempo em que os alunos costumavam lhe chamar de “senhor”.

– Hoje, tudo é diferente! – disse ele ao diretor da escola. – Hoje é cheio de novidade, de tecnologia, de metodologia, de abordagens, de “empoderamento”, não é essa a palavra do momento? Vamos empoderar quem mais tem poder, que é o aluno, e “desempoderar” quem já tem pouco: o professor!

– Não é de poder que estou falando, Leandro. – disse o diretor olhando-o nos olhos. – A autoridade em sala de aula tem dono, e é só do professor. Estou falando de participação, de envolvimento. Precisamos engajar os alunos. Eles estão passivos há tempo demais!

– Diego, eu sei fazer o meu trabalho. Dou aula há 30 anos…

– Talvez seja essa mesma a questão. Será que não faz 30 anos que você dá a mesma aula?

– E que aula eu deveria dar hoje? – perguntou Leandro quase explodindo de raiva.

– Você é um excelente professor, Leandro! Não se ofenda comigo. Se eu não confiasse em você, não estaria lhe provocando dessa forma. Eu sei que você pode trazer algo novo. Algo que transforme a sua aula na aulas “deles”.  Esse é o ponto: por que eles se envolveriam demasiado na sua aula. Nós só nos importamos com as coisas, Leandro, quando essas coisas têm algo a ver conosco, quando, de alguma forma, é também nosso.

Leandro saiu da sala do diretor e descontou no primeiro cesto de lixo que viu. Leandro não conseguia entender o que mais deveria fazer para atrair os alunos do ensino médio para as suas aulas de geografia. Devo virar youtuber, talvez! – pensou aborrecido.

Dois dias depois, Leandro entrou na sua sala de aula da 2a série é lançou um desafio para seus alunos:

– É o seguinte, galera: estou criando o instagram do 2o ano. Nesse mês, vamos estudar ecossistemas marinhos e tudo aquilo que estudarmos deverá virar conteúdo para essa plataforma. Eu serei o curador desse material, por isso não quero gracinhas. Na verdade, vamos fazer um trabalho duro e sério, que será pautado na produção de vocês. A primeira coisa que farão é assistir a algumas aulas que gravei para vocês. Elas estão disponíveis na plataforma virtual da escola. Em vez de terminarmos com uma avaliação, nós iremos fracioná-la. Serão várias atividades para nota, cada uma com um peso e com a respectiva dificuldade. Começaremos já na próxima aula, portanto lhe aconselho a assistir aos vídeos…

Os alunos a princípio estranharam, mas depois, observaram que Leandro estava falando sério sobre as cobranças que prometera. Depois do estranhamento, portanto, veio a rejeição. Eles perceberam que queriam participação, mas não queriam trabalho. E foi justamente o que tiveram: muito trabalho! As aulas do professor Leandro se tornaram as mais desafiantes da escola. Em uma, ele aplicou um jogo de perguntas e respostas, noutra, um fórum de debate. Em outra aula, ele trouxe uma situação-problema: como resolver a questão do acúmulo de plástico nos oceanos? Para se debruçar sobre o problema, os alunos foram divididos em equipes, as quais deveriam trazer projetos aprofundados com propostas factíveis e detalhadas, fase a fase, para tentar resolver a ameaça aos mares. Foram dias de teimas, pesquisas, frustrações até conseguirem levantar ações razoáveis para tratar da questão.

– Eles primeiro estranharam, depois odiaram, mas agora amam as novas aulas do professor Leandro. – disse o diretor Diego para a professora Silvia. – Leandro, hoje, está partindo com os seus alunos para a Ilha do Cardoso. Praticamente todos os alunos da 2a série aderiram à viagem pedagógica. Na verdade, é a culminância do seu projeto: 4 dias em contato com a biodiversidade da Ilha do Cardoso. O que poderia ser melhor depois de tanto tempo estudando os oceanos? Leandro é hoje o nosso professor melhor avaliado, professora! Sabe por quê? Ele teve coragem de ousar, de sair da zona de conforto, de propor algo novo.

– Entendi aonde você quer chegar, Diego! – disse a professora claramente contrafeita. – Mas, deixa eu lhe dizer uma coisa: Eu sou veterana. Faz 25 anos que dou aula…