Ingrata gratidão

29 de maio, 2016 - por Max Franco

“Se recolhes um cachorro faminto e lhe deres conforto ele não te morderá. Eis a diferença entre o cachorro e o homem.” (Mark Twain)

Você já tratou com ingratidão?

Se você é um ser humano e respira, decerto, já teve muito que lidar com este fenômeno tão comum. Neste texto, desejo discutir este sentimento ordinário em todos os sentidos.

Primeiro, quero fazer uma análise etimológica: sabemos, por exemplo, que dar graças quer dizer agradecer. Graça é um substantivo que vem do termo em latim gratia e significa benevolência, mercê, estima ou um favor que se dispensa ou recebe. Tanto que em italiano e castelhano, para se agradecer, se diz Grazie ou Gracias. A palavra gratidão também vem de gratia, como também a deliciosa “grátis”.

Mas, a dúvida é a seguinte: por que, em Língua Portuguesa,  dizemos “obrigado” e não “graças”?

O significado do obrigado como fórmula de agradecimento é literal. Isso geralmente gera estranheza. A palavra, inicialmente, era um adjetivo, mas ganhou, nesse caso, um viés de interjeição. Perde-se na memória geral a construção que a levou a ser empregada em tal papel.
O particípio do verbo obrigar (do latim obligare, “ligar por todos os lados, ligar moralmente”) demonstra a admissão de uma dívida entre quem recebe e quem a concede. A pessoa, portanto, se sente devedora ou obrigada a reconhecer a benevolência e a retribuir. (Que saco, agora sou obrigado a ser legal com esse sujeito!)

Pelo sentido da palavra na nossa língua, então, não somos tão dispostos a agradecer quanto em outras. “Obrigado” é, de fato, menos polite que “graças” ou o velho “não tem de quê”. O “obrigado” tem de quê, não deixa dúvidas, é quase uma coerção. Talvez, transpareça uma triste verdade: não somos tão inclinados assim a agradecer aos nossos benfeitores quanto achamos que somos. Ninguém se diz ingrato. Mesmo assim somos, somos mil vezes ingratos, mais de mil. De onde viria, então, a ingratidão se ninguém a patrocina?

Particularmente, na minha vida, poucas sensações me magoaram mais do que quaisquer atos de indiferença ou de agressão oriundos de quem já agradei ou fiz o bem. Receber vileza ou mesmo omissão da parte daqueles dos quais gostamos ou esperamos, ao menos, algum reconhecimento funciona como uma queimadura generalizada na alma. Eu sei. Ultimamente, sei mais do que deveria. Sei com a sabedoria da prática mais do que da teoria. Sei de aula em campo, não na lousa. Sei diuturnamente mais que por acaso, aqui e ali. Sei sabendo. No entanto, só consigo enxergar um jeito, um antídoto, para a ingratidão alheia, e é não esperar a gratidão. Cabe-nos, portanto, desenvolver uma autogratidão, uma congratulação interna que vai lhe dizer aos ouvidos: foi bom o que você fez, mas não espere retorno!

E, claro,  demonstrar em atos e palavras o quanto a ação do outro lhe foi positiva e benevolente. O quanto você reconhece o bem que lhe prestaram. È a velha regra: se você reclama de ingratidão, não seja você ingrato!

É não se sentir obrigado a agradecer, mas ser grato voluntário.

Eu talvez até tenha essa fortuna. Enquanto, muitos me negaram amabilidades ou até me sabotaram frontalmente, também não me faltaram (nem faltam) amigos e lealdades. Para estes, tão generosos, afirmo, lhes serei sempre devedor, mas um devedor à vontade, satisfeito de merecer a bondade devolvendo bondade, cúmplice da sua felicidade.

Gracias, amigos!