Gente de cinema

09 de junho, 2016 - por Max Franco

– Qual foi o primeiro filme ao qual você assistiu no cinema? Você se lembra?

Eu, sim. Foi Superman. Aquele com Christopher Reeve e o Gene Hackman fazendo o Lex Luthor. Foi meu primo que me levou. Ele vinha prometendo fazia tempo. “Um dia te levo.” O dia demorou anos. Mas antes tarde do que nunca. O dia do levo chegou. Escolhi a melhor roupa. Lavei o tênis puído e #partiucineDiogo.  Até hoje, todo mundo que me leva ao cinema ganha a minha simpatia. É isso mesmo. Sou de manutenção barata. Um filminho na semana, um cafezinho com pão de queijo, uma conversa descompromissada, e você já ganha a categoria de amigo no meu facebook.  Digo isso faz tempo: sou facim.

É verdade que amigo é maior do que isso. Mas não há o termo “candidato a amigo” nas redes sociais.

Desde aquele episódio décadas atrás, não sei se gosto mais de filmes ou de cinema. E, devo dizer, há uma grande diferença entre os dois. Filmes, você pode lhes assistir em casa, na velha poltrona, na sessão da tarde, pela TV a cabo ou usando o divino netflix ( este, sem dúvidas, invenção de deus!). Não tenho nada contra! É mais barato. Dá para parar e atender ao telefone, fazer um lanchinho e ir ao banheiro sem grandes perdas de continuidade.

Cinema, ao invés, é o lugar. É – sei lá – o clima. Tem um ar especial (além do ar condicionado). Ir ao cinema sempre inspira algo diferente. Há aquele lance da antecipação que funciona para atividades assim como o aperitivo funciona para o jantar, como as expectativas e os comentários funcionam para a decisão do campeonato, como as preliminares funcionam para… O fato é que o antes é sempre um baita tempero. A cerimônia antes da própria tem brilho próprio.

Você escolhe o filme, escolhe a roupa, escolhe a companhia e vai fazendo escolhas. Se compra ou não compra pipoca com refrigerante. Onde vai sentar. Ao lado de quem vai sentar. (ou em cima de quem dependendo do filme ou da companhia, ou dos dois, sei lá!)

E então, começam os trailers, adoro trailers. Já viu como trailers são muitas vezes melhores que os filmes? Acho os editores de trailers gênios! São muitas vezes melhores que os diretores dos próprios filmes. Já pensou em quantas pessoas assistem aos filmes pelos trailers? Quantos orçamentos esse povo já salvou convencendo pobres expectadores desavisados e ingênuos a assistirem a uma horda de filmes horrorosos só pela sua capacidade de cortar e emendar películas?!?

Isso me faz até pensar. A maquininha de cismar tem a mania da cogitação crônica. Há  “gente-trailer” e “gente-longa -metragem”. Isso com as suas possíveis variantes, adaptações e derivados. Poderíamos encontrar “gente-curta- metragem”, “gente-videoclip”, “gente-seriado”, daí por diante.

Pessoas trailers são aquelas produzidas de tal forma que você mal conhece e em poucos instantes ela lhe arrebata e lhe conquista. Este ser humano singular parece tão plural que você se fascina.  A sua capacidade de atração, seja pelo seu carisma, seja pela sua estética são atraentes demais. Mas – calma, vá devagar – isso não quer dizer que num contato maior, mais rotineiro, mais duradouro, você continue achando o mesmo. Pode ser apenas um trailer. O filme pode ser bem pior, ou tão bom, ou até melhor. É só com o ingresso pago que você vai descobrir! Todo mundo pede ingresso. Para tudo e para todos, há ônus e bônus. Muitas vezes vamos conviver com prejuízos dolorosos e lucros surpreendentes. Eis a maior constante que observei na vida: para tudo, há preço. Quem não quiser se decepcionar com gente é bom ir já escolhendo a sua ilha deserta.

Gente-filme é bom demais. Dá até para pedir franquia, e muitas continuações. Desde que a produção seja boa e convincente, porque – em caso de gente – não dá para esperar “remake”.

Mas a gente que prefiro – ultimamente – é a série. Gente-Game-of-Thrones , Gente-House, Gente-Roma, Gente-Breaking-Bad, aquela gente que, de tão atraente e fascinante, se espera por uma semana roendo os dedos, ou meses e anos para acompanhar mais uma deliciosa temporada. Há pessoas assim, que nos deixam órfãos quando estão ausentes, ou, pior, quando simplesmente acabam. Eu, particularmente, sou contra que gente e série assim acabem. Coisas dessa natureza deveriam ser ad aeternum sem problemas. Infelizmente, gente é coisa perecível e nem dá para rever de novo e mais uma vez o capítulo repetido. Gente é de transmissão única.

Eu tive e tenho a sorte de encontrar pessoas deste naipe na minha vida. Pessoas tão boas e instigantes que mais parecem ficção. É troço raro, garanto. Mas, vale todo o ingresso que estiver pronto a pagar. Pode ser até inteira no sábado à noite no imax.

Por isso, gosto tanto de cinema e de (algumas) pessoas. Ambos nos proporcionam, na verdade, aquela matéria-prima de que é feita a vida: as experiências mais emocionantes.