A sina da borboleta

08 de fevereiro, 2017 - por Max Franco

Alguém nutre alguma dúvida de que toda transformação requer certa (ou muita) dose de sofrimento?

Se tem, desista da dúvida.
Se estiver com a ideiazinha de colocar na sua agenda uma metamorfose básica, posso lhe garantir: vai doer.
E o pior é que essa dor é muito natural.
Nós não lembramos, mas estou seguro de que nascer também doeu pra caramba.
Você passou nove meses numa espécie de resort. Tinha comida na hora em que quisesse, temperatura amena, sensação de aconchego e segurança. Sem iptu ou taxa de condomínio. Se tivesse netflix, seria o paraíso. De repente, do dia para a noite, teve que sair a qualquer custo. Imagina o trauma? Respirar oxigênio, barulho, leva pra cá, carrega pra lá, cheiros esquisitos, saliva de gente esquisita,  estranhos lhe sacudindo,  “cadê o cordão umbilical que estava bem aqui?” Tudo muito novo e complicado.
Eu desconfio de que não foi nada fácil nascer. É informação demais!
Mas, a opção para não nascer, em compensação, é péssima.
Assim é a vida. Há desses momentos nos quais se faz imperativo encarar a mudança, porque a alternativa não nos serve ou, se já serviu, não mais.
Dói? Puxa. Como dói! Tantas vezes bate até a vontade de pedir o ticket de volta e retornar para o ventre. Dá até desejo de desistir de nascer, porque o mundo exterior é muito hostil e respirar machuca em demasia o peito. “Serei capaz de dar conta de tudo!?”
Mas, é isso que a Vida – grande mentora – nos ensina. Só sobrevive quem se transforma, quem se deixa moldar pelo tempo, quem usa o tempo a seu favor, quem escuta os chamados da sua natureza.
Quem não olha nos olhos da dor e, por covardia, escolhe o conforto das mesmices cotidianas está fadado a uma meia-vida repleta de rotinas medíocres que não satisfazem ninguém. E o sofrimento como aquela goteira no teto vai encharcando os seus dias de tédio e de sonhos adiados. Você vai seguir enfadado e frustrado para um futuro certo, a morte em vida e depois a morte na morte.
Melhor sofrer de uma vez e generosamente dar um presente a si mesmo. Uma chance. Uma possibilidade de subverter tudo e de se transformar.
Nascer dói, meu amigo. Renascer também.
Mas morrer, por sua vez, é coisa demorada.