O menino, o boi e o Leão

02 de abril, 2016 - por Max Franco

Mal havia começado o dia, e o sol, pouco acanhado, já apresentava seu mister. Seria mais um dia abrasador entre tantos outros dias abrasadores comuns no sertão central do Ceará.

Estava sentado à sombra de um angico envergado me entretendo com os brinquedos feitos de osso de vaca quando ele me chamou com a sua voz de barítono. Corri sem demoras. Eu era apenas um meninote mirrado que nem sequer havia completado dez anos, mas já tinha experimentado mais do que desejara do cinto de couro do meu pai para fazê-lo esperar sem necessidade.

− Zequinha, foi você quem deixou a porteira do curral aberta? – perguntou sem meandros e munido daquela expressão da qual só fazia uso quando estava estudando onde iria aplicar a primeira pancada.

− Não, pai… Deve ter sido o Luís – menti, não para comprometer meu irmão menor, mas apenas para adiar o machucado. Meu pai era daqueles que ministrava surras até quando não tinha motivo. Argumentava que eram pelas traquinagens que eu tinha aprontado, mas que ele não sabia. Temia descobrir qual seria o resultado caso ele viesse saber que tinha sido, realmente, eu quem havia ignorado a sua mais clássica recomendação e deixado a porteira do curral aberta.

− Tem certeza de que não foi você, Zequinha? – conhecia aquele tom. Tive que me segurar para não molhar as calças ali mesmo.

A lapada veio sem aviso e me acertou na lateral do espinhaço. Um mundo de medo e dor abriu as suas portas e me convidou a penetrá-lo sem cerimônias. Mas tinha sido só a primeira. Infelizmente, outras lhe sucederam sem atenuações.

− Já sei quando você mente, Zequinha! – vociferou meu pai bufando de raiva. – Agora, se calce que você tem que trazer de volta o Dourado. O problema – agora – é seu. Você deixou o boi escapar, pois que ajeite a presepada.

− O menino é muito miúdo, Zeca… – interferiu a mãe tentando apaziguar. E, de fato, eu era pequeno demais para tarefa de tal monta.

− Menino tem dia para virar homem, mulher! – finalizou meu pai sem abrir chances para novas contestações.

Até chegar ao umbral da porta, algo em mim ainda acreditava na possibilidade de alguma mudança de opinião do meu pai. Cada passo meu em direção à saída era escoltado pela perspectiva de que o velho abdicasse daquela ideia maluca. Eu não tinha a menor noção de como iria trazer um boi de quase quatrocentos quilos sozinho para casa. Por isso, ainda cevava esperança de que ele desistisse da empreitada.

No entanto, além do choro contido da minha mãe e da percussão furtiva dos meus passos no chão nada mais emitiu som. A juventude é mesmo afeita a ilusões. Minha mãe pranteava porque sabia que o coração do velho era antiaderente a compaixões e não seria qualquer beicinho que lhe faria mudar de opinião.

Não demorou para que meus irmãos ladeassem o corredor para me ver passando. Achei incrível não ter identificado qualquer traço de escárnio em nenhum dos seus rostos. Ao contrário, pela primeira vez, até vislumbrei certa nota de dó. Na verdade, eles sabiam que, de todos os oito filhos do meu pai, sempre fora eu o maior cliente do seu cinturão. E nada é mais solidarizante do que cinturão compartilhado.

E assim, com rosto banhado de lágrimas e o peito inflado de temor, enveredei pela caatinga e ganhei o mundo sentindo todos os olhos voltados para as minhas costas. Costas que ainda ardiam por conta das generosas bordoadas desferidas pelo meu pai.

Não sou de fiar cismas, porém sempre cogitei se Deus tinha ou não abandonado o sertão. Sabia que não era da natureza divina abandonar os sofridos, mas imaginava que se Ele prestasse a caminhar pela caatinga ao menos por um dia, tudo mudaria para as nossas bandas. Afinal, só sabe o jugo da secura quem se embrenhou por ela. Não há livro, relato testemunhal ou recurso audiovisual que traduza com menor exatidão o que é a vida sob a égide da seca. Tanto que, mal tinha adentrado pela vereda de espinheiros, já sentia me envolvendo o abraço cáustico do mormaço exalado pela aridez do chão rachado.

Não havia trazido alforje com água e comida nem me dignaria topar de novo com a minha família. Preferi, então, apostar que o boi Dourado não houvesse se distanciado muito. Esse foi só mais um dos grandes equívocos que teceram a minha triste sina naquela desastrada expedição à cata do boi predileto do meu pai. Na verdade, desconfiava que era o ser vivo predileto do meu pai.

Foi aí que percebi caminhando ao meu lado o cachorro da casa. Era mais de fora da casa do que da casa propriamente. Ninguém dava muita importância ao vira-lata. Tanto que nem batizado era. Apelidávamos comumente o bicho de toda sorte de denominação: peste, praga, coisa, cão e até mesmo cachorro. Mas, naquele momento, ele me pareceu tão gente, até tão solidário a minha causa, que decidi encontrar um nome altivo para o cãozinho. Resolvi batizá-lo de Leão, e ele pareceu ficar feliz com o nome.

E foi Leão quem me alertou da pista do boi ao desatar, de súbito, numa correria desembestada pelo meio do mato seco. Não tive outra opção a não ser correr também através da teia engendrada de arbustos, mandacarus e xique-xiques.

Cada vez que pensava em parar, seja pela canseira que me enfraquecia a determinação, seja pelos cortes e arranhões que se multiplicavam pelo meu corpo, eu tinha a forte impressão que acionava uma espécie de sirene de alerta na minha cabeça me recomendando a prosseguir. Eu estava na cola do bicho e o meu único pensamento era voltar para casa triunfante com o meu troféu.

A noite já abocanhava o dia quando cedi aos reclames das minhas pernas e me permiti escorar numa aroeira ressecada.

Num breve levantamento sobre as minhas condições físicas, avaliei que meu corpo estava coberto de lanhaduras, como se houvesse sido exposto a uma esmerada sessão de chicotadas. Não obstante o meu estado deplorável, percebi que ainda estava susceptível a contentamento, pois escutei, ao longe os latidos de Leão, cujo som segui e acabei por encontrar o boi parado à sombra minguada de um umbuzeiro.

No entanto, quase de imediato, me dei conta de que havia celebrado cedo demais, pois o boi Dourado não era famoso pelo seu temperamento dócil, e não dava sinais de que se renderia passivamente aos meus comandos.

Olhei para Leão com ansiedade e ele pareceu me devolver o olhar com igual intenção. Estava me sacudindo de medo, mas mesmo assim, com cautela desmedida, aproximei-me do enorme animal balbuciando palavras de alento. Devagarzinho, comecei a envolver seu pescoço com a corda, ao que ele me demonstrou até certa solicitude. Porém, a disposição obsequiosa não demorou muito, pois, de repente, se moveu com tal rapidez que a sua marrada me atirou pesadamente no chão gretado.

Tive receio de que ele investisse seus chifres para cima de mim, mas, oportunamente, Leão chamou a sua atenção latindo freneticamente. Ele pareceu hesitar, mas acabou se desinteressando por mim e saiu por uma picada aberta no meio do mato seco.

Levantei-me coberto de poeira e de suor, os quais me queimavam os olhos e empapavam o rosto e os cabelos. Minha garganta seca lutava para engolir a pasta indigesta de saliva que me amargava a boca. E para piorar ainda mais o meu quadro, percebi que minava sangue dos meus joelhos ralados com a queda. Toda a minha ambição naquela hora se resumia a poder descansar mais um pouco, porém uma sensação de urgência me empurrou para frente, afinal, tinha consciência de que, se me demorasse mais, poderia novamente perder o boi de vista, e isso era tudo que menos desejava.

Leão corria novamente no encalço do boi e o imitei seguindo logo atrás do cachorro. Não sei ao certo quanto tempo durou aquela perseguição inusitada, mas tenho a vívida noção que permanecemos assim por horas. De vez em quando, o bicho parava, mas eu não tinha mais coragem de me achegar nele. Não demorava para que ele retomasse a sua marcha nos incitando a acompanhá-lo naquela expedição sem rumo.

Enfim, o sol se alçava a pino sobre o mar de arbustos ressequidos quando ele decidiu repousar mais uma vez e eu, que vinha arquitetando um arremedo de plano, resolvi inflar o peito, trincar os dentes e agir.

O plano que bolei não tinha nada de sofisticado, mas devo admitir que o cumpri à risca. Só quem não colaborou conforme o planejado foi mesmo o boi. Porque, assim que ele parou para se recompor, eu acelerei o passo cruzando com ele ao mesmo tempo em que enlaçava o seu pescoço. Depois, sem perda de tempo, amarrei a corda num toco de madeira que encontrei perto. Se não estivesse tão cansado teria dado pulos de alegria. Enfim havia abocanhado uma vitória.

Isso era o que eu pensava, porque o bicho parecia determinado a não perder o seu status de criatura livre e solta, porque quando se viu preso o boi irrompeu em violentos pinotes. Poucas vezes na vida pude contemplar uma manifestação de fúria tão avassaladora. O animal parecia possuído. Saltava e se contorcia de modo tão frenético que não precisou de muito tempo para arrancar o tronco do chão. Minha surpresa foi tal que não esbocei reação a não ser ficar ali meio apoplético. Esperei pelo pior. E esse pior quase ocorreu, porque não faltou muito para que o boi se jogasse em cima de mim a fim de sapatear a minha cabeça.

Até hoje não consigo entender bem o que motivou aquele cachorro a querer me proteger. Mas o fato foi que ele, corajosamente, partiu em direção à besta ensandecida e cravou os dentes na argola de ferro que perfurava as suas narinas. O urro que o boi produziu fez com que os pássaros que dormitavam nos arredores levantassem voo.

A cena que acompanhei a seguir foi tão formidável que não acredito que um dia possa esquecê-la, porque, apesar de o boi sacudir violentamente o cão para todos os lados, Leão mantinha os dentes fincados no aro de ferro com uma obstinação heróica. No entanto, a luta desigual findou com o cachorro sendo atirado com força descomunal contra o caule de um juazeiro. Os sons de ossos se partindo e de um ganido desesperado deixaram claro o resultado do embate desproporcional.

Após o duelo, ergui-me com sofreguidão. O boi Dourado dava sinais de estar tão esgotado quanto eu e, portanto, sobrepujado. Não obstante, percebi de imediato que o preço daquela conquista havia sido a vida do cãozinho com nome e coração de Leão.

Examinei-o sem alimentar qualquer esperança. E, de fato, não havia razão para expectativas vãs. O bichinho não respirava mais. Portanto, nada mais me restava além de retornar rebocando o boi, enfim rendido, para o curral de onde nunca deveria ter saído.

O sol já havia declinado e a lua imperava majoritária no firmamento quando retornei à pequena propriedade do meu pai. Trazia o boi com a corda amarrada na argola de ferro que se destacava das suas narinas. O cachorro havia me ensinado como deveria agir.

Meus irmãos, movidos pela curiosidade, acorreram das mais diversas partes da casa para verificar o que iria me ocorrer por ter proporcionado tanta preocupação à família. Afinal, já fazia muito tempo que partira para resgatar o boi Dourado.

Lá estava ele, meu pai. Mas, havia algo diferente. Pela primeira vez identifiquei nas suas feições algo diferente do que a costumeira raiva. Nunca vou esquecer, porque, naquele instante, pareceu-me até com orgulho.

– Zeca! Larga esse cinturão! – gritou minha mãe consternada.

Estava machucado, magoado, exaurido. E não voltei a palavra a ninguém, nem prestei explicações. Só fiz largar o boi no curral e, de fronte erguida, adentrei na minha antiga casa fitando meu pai firmemente nos olhos. Hoje sei que aquela atitude, na verdade, não era nem coragem, nem desafio. Eu só não me importava mais.

– Não te preocupa, mulher! – decretou meu pai. – Não se bate em homem.