O corvo e a andorinha

24 de fevereiro, 2017 - por Max Franco

O CORVO E A ANDORINHA

OU UMA FÁBULA PARA QUEM ODEIA LIÇÕES DE MORAL

 

Fábulas – como sabem – são aquelas historinhas protagonizadas por bichos que têm a triste mania de pretender dar lições de moral. Isto é: geralmente uma chatice arrematada. (Criança tem que agüentar muita coisa!) Não obstante, não acredito que haja muita gente que não tenha ouvido ou lido uma fábula na infância. Por sinal, há muito tempo que fábulas e joelhos esfarrapados são tradições infantis. Esopo e La Fontaine são os mais famosos autores do gênero. No Brasil, temos o nosso Monteiro Lobato, que teve o mérito de incluir personagens do folclore tupiniquim e de não ter sido tão “palmatória do mundo”. Afinal, moral não é lá o mais expressivo dos nossos produtos nacionais.    

A fábula mais legal que li, no entanto, não é de nenhum desses, mas a irreverente “O Rouxinol e a Rosa” do Wilde. Inclusive, inspirada nela, decidi me aventurar nessa seara (no caso, é melhor dizer “bosque”) literário-selvagem. Vejamos o resultado de tal expedição:

 

ERA UMA VEZ…

HÁ MUITO-MUITO TEMPO,

NUMA TERRA DEVERAS DISTANTE,

UMA ÁRVORE FRONDOSA DE LONGOS GALHOS CURVILÍNEOS.

NESTA FORMIDÁVEL ÁRVORE HABITAVAM TANTAS AVES.

ALGUMAS BELAS, COMO O ROUXINOL, O BEM-TE-VI E AS POMBINHAS BRANCAS.

TODAVIA, NENHUMA ERA TÃO BELA COMO A ANDORINHA,

CUJO CANTO E VÔO HARMONIOSOS ENCANTAVAM A TODOS.

CONTUDO, EXISTIAM TAMBÉM OS PÁSSAROS IMPOPULARES:

A CORUJA E O CORVO NÃO FAZIAM NENHUM SUCESSO!

COMO SABEM, ESTÉTICA É O MAIOR DOS VALORES NO MUNDO DOS SERES ALADOS.(FENÔMENO MUITO INCOMUM ENTRE NÓS SERES TERRESTRES !)

UM DIA, AO AMANHECER ESTRANHO DE UMA MANHÃ MAIS ESTRANHA AINDA, ACONTECEU UMA COISA REALMENTE ESTRANHA:

A ANDORINHA NOTOU A EXISTÊNCIA DO CORVO.

VIU – NINGUÉM SABE AO CERTO O PORQUÊ – QUE ELE NÃO ERA NEM TÃO FEIO NEM TÃO ASQUEROSO QUANTO TODOS-TODOS-TODOS AFIRMAVAM.

PERCEBEU QUE SEU CANTO NÃO ERA, DE TODO, DESPROVIDO DE CERTO CHARME ORIGINAL.

OBSERVOU COMO O NEGRO DAS SUAS ASAS BRILHAVA À LUZ DA LUA CHEIA.

E FOI MESMO APENAS A LUA A ÚNICA TESTEMUNHA DAS FUGAS FURTIVAS DO VELHO CORVO E DA LINDA ANDORINHA.

UM ROMANCE IMPROVÁVEL

IMPROVÁVEL NÃO: IMPOSSÍVEL!

ESCÂNDALOS SÓ SÃO AGRADÁVEIS QUANDO SÃO COM OS OUTROS.

E AS AVES APAIXONADAS – COMO SÃO TOLOS OS APAIXONADOS! – VOAVAM SOBRE OS LAGOS, CAMPOS E MONTANHAS FESTEJANDO O SEU INSANO AMOR.

E CANTAVAM ESCONDIDOS NO GALHO MAIS ALTO DA ÁRVORE MAIS ALTA DO BOSQUE MAIS RECÔNDITO DA FLORESTA OCULTA.

E ERAM TÃO FELIZES NO SEU IDÍLIO CAPITAL;

E RIAM RISOS SOLTOS.

E TUDO IA BEM DEMAIS (…)

 

NA VERDADE, NA VERDADE, NADA VAI SEMPRE BEM DEMAIS, NADA É PERFEITO E FINAIS FELIZES SÓ ACONTECEM MESMO NA SESSÃO DA TARDE. TODO FINAL É TRISTE, SE NÃO, NÃO SERIA FINAL, SERIA COMEÇO.

  • HAVIA AS PRESSÕES PÚBLICAS, HAVIA AS LEIS DOS COSTUMES PASSARAIS E, INFELIZMENTE, HAVIA A ANDORINHA MACHO.

POIS É, ABSURDO: EXISTEM ANDORINHAS MACHOS.(DA MESMA FORMA QUE EXISTEM HIPOPÓTAMOS FÊMEAS!)

E, COMO VERÃO, UMA ANDORINHA SÓ NÃO FAZ VERÃO…

TUDO ACABOU COM O NOSSO VELHO E SOLITÁRIO CORVO BEBERICANDO ÁGUA ESTAGNADA NO POÇO ATRÁS DO CASTELO ACOMPANHADO DO GAIATO SABIÁ QUE NADA TINHA COM A HISTÓRIA –  NEM QUERIA TER.

 

MORAL DA HISTÓRIA:

– Não há moral alguma. Se alguém necessitar de uma que invente a sua.