Helena sem cavalo de Tróia

22 de abril, 2016 - por Max Franco

 

 

O rapaz se encaminhou com passo apressado para a parada do ônibus lotada, como era o hábito nesse horário. Na verdade, era comum em todos os horários entre as seis da manhã e a meia noite. Material pesado na mão. Peso das horas na labuta pesando ainda mais na cabeça. Já eram quase onze da noite. Havia saído de casa de manhã cedinho. Oito horas de aulas para dar, além de mais algumas – sonolentas – para assistir na universidade.

Ao seu lado, bocas cerradas num silêncio resignado e olhares cúmplices de “tá foda” estampados no rosto. Queixas não visitam muitas bocas de gente esforçada. O diligente pega no batente com garra, com afinco, faca nos dentes. Mas, às vezes, em certas ocasiões, a fadiga escapa do peito e fica tão exposta nos olhos qual um luminoso de néon piscando na noite.

Enfim chegou o ônibus. Precisaria ainda de módicos quarenta minutos para estar em casa. A mocinha de olhos claros vinha de novo naquele horário e lhe pediu suas coisas para segurar. O rapaz agradeceu com o sorriso que acreditava ser o seu mais encantador. Mas, estava esgotado e faminto demais para tentar ser galante e puxar algum assunto.

Algum descuidado pisava seu pé, porém nem ligou. Já estava abrigado nas suas costumeiras divagações. A última em cartaz era uma nova fantasia recorrente: que bom seria fazer uma viagem! Havia lido, recentemente, numa revista de turismo uma matéria sobre a Grécia e foi quase imediato se transportar para um romântico cruzeiro pelas ilhas gregas.

Ah se tivesse grana! – cogitou mentalmente. Grana não traz felicidade, mas patrocina as distrações necessárias para que você não se recorde disso.

E lá iria ele de paletó branco, lenço azul no pescoço e chapéu de marinheiro, saboreando quase de forma mística uma típica moussaka acompanhada de um bom ouzo, enquanto apreciava o mar Egeu pelas janelas do restaurante do luxuoso navio. Faria tudo isso, é claro, com a naturalidade (quase com tédio mesmo!) de quem tem por hábito manter esses pequenos caprichos na vida.

Mesmo com tanto glamour lhe faltava algo para tornar perfeita a sua viagem. Algo não: alguém. Afinal, viagem para a Grécia sozinho é quase sacrilégio. Mas quem? Quem lhe acompanharia no idílio? Quem estaria ao seu lado sentada a uma mesa de calçada, no antigo bairro de plaka, admirando a suntuosidade do Pathernon e apreciando um souvlaki fresquinho? (perdão pela insistência em exemplos gastronômicos, porém, a fome era tanta que a repetição se torna justificável!) – Ah, é claro, a moça educada de olhos claros! Quem sabe seu nome não seria Helena?! Na Grécia com Helena, nada poderia ser melhor. “Mikonos ou Santorini, qual a mais bela?” Essa era agora a sua única questão.

De pé no ônibus, olhos fechados, cabeça centrada no sonho. Balanço do ônibus bom para acalentar sonhos. Balanço quase imitando o movimento do navio.  Na Grécia com Helena. Contemplar o pôr do sol da sacada do seu hotel – com Helena. Os olhos de Helena brilhando com a emoção do momento. Os tetos brancos das casas repetindo o escarlate do céu imenso. Os dias seriam mágicos (para não resvalar na infâmia e dizer mitológicos). Percorreriam deliciosamente as mais belas ilhas gregas e firmariam juras de voltar quando tivessem que embarcar para casa. CASA?! A imagem fez-lhe despertar do sonho. Pegou suas coisas da mão de Helena e, não sem sacrifício, desceu para a rua escura. Era meia-noite, fim do encanto. Deixou a Grécia para depois. Agora, queria só comer algo e dormir um sono reparador. Cheio de sonhos consoladores.

Afinal, sonhos, religião, viagens e amores são bons lugares para se abrigar a qualquer hora, ainda mais quando a vida endurece.