Um lugar com caráter

11 de junho, 2018 - por Max Franco

Estive nos últimos dias na Pousada Uxua, em Trancoso. Na chamada “Costa do descobrimento”. Os dias que passei no Uxua, porém, não tiveram uma função apenas de lazer. Na verdade, fui convidado pelo direção do estabelecimento para realizar um trabalho de consultoria em storytelling com o seu staff e equipes de concierges, com o intuito de identificar e aprimorar as histórias referentes ao hotel.

Não tenho a menor noção de quantos hotéis e pousadas me hospedei na vida, mas saberia citar quais me impactaram profundamente. Me lembro, ente tantos, do hotel de Mykonos, na Grécia, de outro em Cortina d’Ampezzo, na Itália, de certo hotel em Copenhagen, de mais um em San Martin de los Andes, de outro, na 45, em NY, de alguns alojamentos até muito simples, como o hostal no qual fiquei em Barcelona em 2004. Depois destes dias em Trancoso, a pousada Uxua também ganhou o direito de permanecer nesta seleta prateleira.
O leitor que tiver a curiosidade de conferir nos sites especializados, talvez aponte certo cinismo da minha parte porque, sem dúvidas, a Uxua está muito bem no ranking das pousadas brasileiras. A palavra “pousada”, por sinal, pode ser não interpretada quando falamos da Uxua. Não são muitas casas do ramo que merecem nota superior a 9,5, ou a alcunha de “fabulosa” nos sites de turismo. A Uxua támbém ostenta, e com razão, a colocação entre as 20 melhores pousada do mundo. Devo dizer que os hóspedes estão conscientes disso e os profissionais que lá trabalham também. Por isso, decerto, o valor das suas diárias náo é para principiantes.
Por tudo isso que apontei, você deve estar presumindo que o local é a definição do chique. Depende muito do que você chama de “chique”. A Pousada Uxua gosta mais dos adjetivos: rústico-sofisticado ou rústico-refinado.
O que eu acho?
Acho que estão mais do que autorizados a usarem estes predicados.
Nós, eu e a minha namorada, Rebeca (que, de muita boa vontade, me acompanhou neste Job), ficamos hospedados na casa do Seu Irênio. Entenda: as casas mantem os nomes dos seus antigos moradores, os quais, geralmente, eram pescadores de Trancoso. Várias destas casas se localizam no perímetro mais disputado da vila, no inconfundível “Quadrado”. Como dizem os habitantes do local: “Está mais para um retângulo, do que para um quadrado!”, que é um quadrilátero com casas de arquitetura colonial, todas, justapostas. Como não poderia ser diferente, as casas ostentam fachadas simples, mas muito coloridas e bem cuidadas. No centro do quadrado, vemos um grande gramado com traves que parecem se esforçar para se manterem ainda de pé. No seu lugar de honra, vemos a igrejinha de Trancoso, datando quase 500 anos, alguns dizem que é a segunda mais velha do Brasil.
No quadrado, sempre escutamos o riso das crianças com seus brinquedos, os velhos violeiros que se reúnem no fim da tarde para tocarem as suas toadas e, à noite, música para todos os gostos. Há sempre música no quadrado.
Quando chegamos ao Uxua, a primeira coisa que nos impressionou foi o tipo de recepção que tivemos. Nada de senhor ou senhora. Carlos, o concierge, nos chamou pelos nomes e nos abraçou. Isso! Nos abraçou. Como quem está retornando para casa. Para reforçar, o sentimento, ele nos guiou até uma bela casa de cor azul no quadrado e nos disse: “essa é a casa de vocês”! O pensamento que nos veio assim que a casa foi aberta foi igual: “quem me dera se fosse!”. Esta é realmente a impressão que eles querem denotar, que estamos em casa.
E, de fato, não precisa de muito tempo para que assim nos sintamos. “Vamos voltar para casa?”, nos flagramos rapidinho usando estes termos. É meio mágico mesmo conseguir em tão pouco tempo se sentir em casa.
Nos dias de Uxua, ouvi histórias maravilhosas narradas pelos seus profissionais. Eram narrativas, no entanto, não sobre o hotel, mas sobre a relação das pessoas com o hotel.
Carlos – um storyteller nato – me brindou com histórias que mereciam páginas de livro (eu continuo insistindo que virem!):
Por exemplo: Havia essa mulher estranha e calada, que, depois de vários dias no hotel, não demonstrava nenhum apreço por nada. Carlos, tentando animá-la de alguma forma, a convida para uma roda de capoeira. Ela hesita, mas aceita o convite (de forma surpreendente). A reação da londrina na roda foi ainda mais inusitada. Depois de alguns minutos, ela está praticando capoeira na roda. Carlos nota, porém, que ela chora enquanto joga. Foi só depois que ele entende a reação da mulher. Ela estava vivendo um duro processo de separação do seu marido brasileiro. Brasileiro e capoeirista. Ela nunca tinha entendido o apreço do marido pela capoeira. Até aquele momento. Ela tivera uma espécie de epifania. Havia “caído a ficha”. Os outros dias em Trancoso foram de grande transformação. No rosto em que se só habitavam lágrimas, agora só sorrisos faziam morada. A inglesa, depois dos dias de hospedagem, voltou para Londres e se inscreveu num curso de capoeira. Ela e a família voltaram ao Uxua outras vezes.
Além dessa história, ouvi muitas e de muita gente. Cada uma melhor do que a outra. Em todas, uma marca comum: o desejo de cada funcionário do hotel de ver todos os hóspedes realmente felizes.
Essa abordagem foi a que mais me impressionou. Porque, decerto, estive em hotéis e pousadas comprometidos com a qualidade de serviços prestados. Mas, nunca havia presenciado uma real preocupação com a qualidade da felicidade do hóspede. Isso é revolucionário!
A preocupação com o “humor” do hóspede pode ser conferida em cada detalhe do Uxua. Os donos, Bob e Wilbert, um americano e o outro holandês, antigos estilistas da Diesel, são formidáveis no departamento criatividade. São capazes de reaproveitar elementos imponderáveis. Você já viu uma antiga boleia de caminhão virar uma cama espetacular? Pois no Uxua você vê. Na verdade, a velha máxima de Lavoisier pode ser usada à exaustão no Uxua: no Uxua, nada se perde, tudo se transforma. Pedras viram bancos, tocos de madeira viram pias, garrafas viram candelabros, velhos sacrários viram decoração… É tudo adaptado com tal bom gosto que é de tirar o fôlego. Essa, sem dúvidas, é uma das marcas deste lugar: o bom gosto. É como se tudo que você olhasse e tocasse lhe dissesse: a sofisticação está na simplicidade!
Ao mesmo tempo, conseguem fazer um trabalho real e efetivo, sem fanfarronices e embustes, de desenvolvimento sustentável da comunidade, com responsabilidade ambiental e inclusão social.
Houve outra frase que ouvi do Adalberto, diretor do hotel, um paulista de bermudas, chinelo e sorriso constantes: “Mais do que luxo, nós desejamos que a nossa pousada conte histórias. Cada lugar, cada funcionário, cada elemento decorativo, cada utensílio… Tudo deve ter uma história para contar!”.
Muito bem! Música para os meus ouvidos!
Essa é a verdadeira apropriação do storytelling no turismo.
Eu vivo repetindo: a história é o maior e melhor ingrediente de um destino turístico. Nós não nascemos querendo ir para Paris. Nós aprendemos a querer conhecer Paris, porque Paris tem histórias e conta histórias.
As Bahamas contam outras histórias. Ouro Preto também tem as próprias.
Quem atrai mais? Adivinha?
Quem tem mais e as propaga melhor.
Esse é um diferenciais do Uxua. Além de se localizar num local histórico, o lugar exala histórias.
Os funcionários, por exemplo, são estimulados a aprender outras línguas e a também contarem as suas histórias pessoais. O turistas adoram escutar essas narrativas.
Como a história, do fortalezense Bruno, que há anos largou o emprego e veio para Trancoso pensar na vida. Não só pensou, mudou a vida. Quatro meses depois de chegar a Trancoso, era supervisor do Uxua. Lugar que nunca mais deixou.
A Tamara, por sua vez, deixou o Rio de Janeiro.
Carlos, Brasília.
Outros são nativos de Trancoso, mas nem por isso têm histórias menos insólitas.
Eu descobri inúmeras histórias de vida nesses dias na Costa do Descobrimento. Cada uma mais impressionante do que a outra.
É este elemento que vejo que falta na maiorias dos lugares: humanidade. Há lugares tão insípidos que mal parecem ser habitados por gente. E é isso que sobra no Uxua. É um lugar de personalidade. Um lugar feito por pessoas para pessoas. Sem cerimônias e protocolos. Olhos nos olhos, pé descalço, sorriso aberto.
Resta-me agora apenas parabenizar e agradecer.
Além de dizer, até a próxima.
E – lógico – cuidem da nossa casa até a nossa volta.