Turismo cultural

26 de fevereiro, 2019 - por Max Franco

Os termos turismo e cultura são demasiado abrangentes e se tornam igualmente complexos quando são interrelacionados. Por esse motivo, o MTur, em parceria com o Ministério da Cultura e o IPHAN, e com base na representatividade da Câmara Temática de Segmentação do Conselho Nacional de Turismo, define Turismo Cultural[1] da seguinte forma: “Turismo cultural compreende as atividades turísticas relacionadas à vivência do conjunto de elementos significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e promovendo os bens materiais e imateriais da cultura”.

O conceito de Turismo Cultural está relacionado à motivação do turista, principalmente quando este decide visitar determinado destino com o objetivo de vivenciar o patrimônio histórico e artístico como também de eventos culturais (shows musicais, peças teatrais, exposições de arte, feiras cultuais etc.). Mas o que seria “vivenciar” o turismo cultural?

Vivenciar implica, essencialmente, em duas formas de relação do turista com a cultura ou algum aspecto cultural: a primeira refere-se ao conhecimento, aqui entendido como a busca em aprender e entender o objeto da visitação; a segunda corresponde a experiências participativas, contemplativas e de entretenimento, que ocorrem em função do objeto de visitação. (MTur, 2006, p. 10).

O storytelling funciona como mais um elemento de engajamento e atração para esse viajante que busca experiências culturais. Os ingredientes necessários para gerar envolvimento, comuns às narrativas, são adequados para serem utilizados como argumentos de sustentação para o turismo cultural. O turista que busca essa modalidade de experiência é inclinado a apreciar literatura, folclore, dança e teatro. Essas expressões artísticas fazem parte do DNA das histórias do lugar e do seu patrimônio cultural. É bom saber, portanto, como se define “patrimônio cultural” e como explorá-lo a fim de potencializar a prática do turismo em destinos que pretendam explorar essa modalidade.

Patrimônio histórico e cultural é todo o bem de natureza material e imaterial que expressa ou revela a memória e a identidade das populações e comunidades. São bens culturais de valor histórico, artístico, científico, simbólico, passíveis de tornarem-se atrações turísticas: arquivos, edificações, conjuntos urbanísticos, sítios arqueológicos, ruínas; museus e outros espaços destinados à apresentação ou contemplação de bens materiais e imateriais; manifestações como música, gastronomia, artes visuais e cênicas, festas e celebrações. Os eventos culturais englobam as manifestações temporárias, enquadradas ou não na definição de patrimônio, incluindo-se nesta categoria os eventos gastronômicos, religiosos, musicais, de dança, de teatro, de cinema, exposições de arte, de artesanato e outros. Valorização e promoção dos bens materiais e imateriais da cultura A utilização turística dos bens culturais pressupõe sua valorização, promoção e a manutenção de sua dinâmica e permanência no tempo como símbolos de memórias e de identidade. Valorizar e promover significa difundir o conhecimento sobre esses bens e facilitar seu acesso e usufruto a moradores e turistas. Significa também reconhecer a importância da cultura na relação turista e comunidade local, aportando os meios para que tal relação ocorra de forma harmônica e em benefício de ambos. (MTur, 2006, p. 11).

É importante citar que as viagens incentivadas por motivos religiosos, místicos, esotéricos, cívicos e étnicos são também compreendidas como modalidades no âmbito do Turismo Cultural, como também podem ser: Turismo Cívico, Turismo Religioso, Turismo Místico e Esotérico e Turismo Étnico. O Turismo Gastronômico, entre outros, pode também ser identificado como Turismo Cultural, desde que sejam mantidos os princípios da tipicidade e identidade.

O turismo cultural se alimenta das diversas manifestações oriundas da diversidade artística e criativa da localidade: pintura, escultura, teatro, dança, música, gastronomia, artesanato, literatura, arquitetura, história, festas, folclore, entre outros, formam uma combinação que possibilita a vivência da cultura nacional. Quanto mais ricas e diversas forem as opções culturais e atividades locais, maiores serão as possibilidades de se criar produtos diferenciados que venham a suprir várias demandas. Quando o destino turístico oferece muitas alternativas de experiências de entretenimento e de cultura, além de estimular a permanência do turista por um tempo maior, isso também estimula a visitação nos períodos de baixa temporada.

Outro fator que pode exercer um papel relevante na valorização de um destino turístico está presente no mundo da ficção. Existem inúmeras iniciativas em diversas localidades turísticas de apropriação do universo ficcional pelo turismo. Há lugares que tiveram seus conceitos construídos ou mesmo ressignificados a partir da influência da ficção. A plataforma 9 3/4 citada inúmeras vezes pela escritora J.K. Rowling transformou a estação King Cross Road, em Londres, em um aclamado ponto de interesse turístico.

O mesmo fenômeno aconteceu com os locais “percorridos”, em Paris, pelo personagem Robert Langdon, dos romances de Dan Brown. Woody Allen é outro ficcionista que tem o hábito de transformar locais públicos em turísticos, como ocorre nos seus filmes “Meia noite em Paris”, “Match point”, “Para Roma com amor” e “Vicky Cristina Barcelona”, entre outros. Praga oferece um passeio noturno chamado “Ghost trail”, no qual os participantes caminham durante horas pela capital da República Tcheca acompanhados por um guia que narra histórias de terror para turistas curiosos e amedrontados. O tour prevê, inclusive, uma incursão pelo velho cemitério da cidade (logicamente, à meia-noite).

Em Recife, é possível se fazer um tour literário pelo centro da cidade, visitando lugares que são agraciados com estátuas de seus célebres frequentadores: escritores, músicos e poetas pernambucanos ou de autores que chegaram a morar em Recife. Ali se encontram estátuas de Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Chico Science, além de outros.

Essa é uma clara demonstração do potencial que possui o storytelling de agregar valor aos destinos turísticos. Na verdade, em virtude da exploração de narrativas ficcionais ou baseadas em registros históricos, pode-se mais do que apenas agregar valor a locais comuns, mas criar destinos turísticos. É o que ocorre nos parques temáticos, os quais são buscados não apenas pelo seu viés de entretenimento e diversão, mas também pelo apelo emocional que a narrativa e a ficção lhes traz. A Disney é o exemplo mais poderoso em todo o mundo de sucesso utilizando essa estratégia. Parques de diversão como Magic Kingdom, Universal, Hogwarts e Epcot e Hollywood nascem e prosperam a partir da exploração da imagem de personagens famosos em todas as latitudes do planeta.

O storytelling, portanto, tem a capacidade de potencializar e glamourizar determinados locais, os quais deixam de ser comuns e são transformados em turísticos pela força das narrativas. O storytelling também tem a capacidade de criar destinos turísticos a partir de elementos ficcionais ou históricos. As narrativas ficcionais ou históricas não só conseguem acrescentar atratividade em certos lugares, mas também conseguem erguer os próprios lugares do zero.

O cinema e a televisão podem agregar valor a um destino turístico, transformando cenários e recursos culturais em grandes atrativos, quando esses forem palco para as gravações de um filme, ou minisséries e novelas de cunho histórico, principalmente. Quando tais produções se tornam conhecidas, podem estimular maior fluxo turístico para esses locais. Tal fato deve ser visto como uma oportunidade de se trabalhar outros conteúdos presentes no local, aproveitando o fluxo de turistas para promover a cultura local, valorizando-a em sua totalidade de aspectos. (MTur, 2006, p. 16).

A prática do turismo cultural traz outras vantagens para o destino turístico:

a.  Diminui a sazonalidade, podendo ser praticado em qualquer período do ano;

b.  Depende menos do clima;

c.  Favorece a criação de eventos relativos aos elementos culturais explorados no local;

d.  Pode ser praticado tanto nas capitais como em outras cidades, inclusive no ambiente rural;

e.  Os valores locais (história, identidade e memória) são essenciais para a construção de produtos de Turismo Cultural. A comunidade, portanto, assume um papel fundamental, principalmente no conhecimento da própria história e da sua riqueza cultural. O reconhecimento dos valores locais, ao serem evidenciados pelo turismo, enriquece a experiência do turista e reforça o sentimento de pertença local (MTur, 2006).

Um bom exemplo dessa valorização da cultura e do folclore locais é a festa que ocorre todos os anos em Mossoró: o espetáculo Chuva de bala no país de Mossoró. Anualmente, no mês de junho, o evento reúne milhares de espectadores que são esperados em Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte, para assistirem a uma grande apresentação campal de relatos que fazem parte da história da cidade. O espetáculo conta a história da resistência do povo de Mossoró à invasão do bando de Lampião, no ano de 1927. Lampião acaba sendo expulso pelos mossoroenses. O fato histórico se transforma em apresentação teatral e é um dos diferenciais da cidade de Mossoró, atraindo milhares de turistas e habitantes a cada edição. A encenação acontece no Adro da Capela de São Vicente, no local real da batalha entre cangaceiros e resistentes. É uma excelente amostra de como as narrativas locais podem ser transformadas em elementos atrativos para turistas.

Da mesma forma, o evento também proporciona ao nativo o conhecimento da própria história como também uma valorização da própria cultura. “Chuva de bala” ocorre em período de baixa estação e em uma cidade do interior. É um evento que serve como uma excelente amostra de como a união entre arte e ficção e entre storytelling e turismo funciona para desenvolver o comércio e a hotelaria da cidade, como também para fortalecer a autoestima dos citadinos.

Vários eventos podem ser classificados como promotores de turismo cultural no Brasil: festas juninas, festas de padroeiros, festivais literários, de dança e de teatro, shows, musicais, feiras de livros, entre outros. Mas há potencial para se explorar ainda mais caso exista um planejamento mais acurado por parte dos gestores públicos e privados do turismo.

Um dos primeiros passos para a estruturação desse tipo de turismo é identificar e avaliar se na região existem atrativos culturais significativos, efetivos ou potenciais, que possam motivar o deslocamento do turista especialmente para conhecê-los. Segundo classificação atualizada do MTur, os principais atrativos desse tipo de turismo são:

• Sítios históricos – centros históricos, quilombos;

• Edificações especiais – arquitetura, ruínas;

• Obras de arte;

• Espaços e instituições culturais – museus, casas de cultura;

• Festas, festivais e celebrações locais;

• Gastronomia típica;

• Artesanato e produtos típicos;

• Música, dança, teatro, cinema;

• Feiras e mercados tradicionais;

• Saberes e fazeres – causos, trabalhos manuais;

• Realizações artísticas – exposições, ateliês;

• Eventos programados – feiras e outras realizações artísticas, culturais, gastronômicas. (MTur, 2006, p. 15).

[1] Turismo cultural: orientações básicas / Ministério do Turismo, Coordenação-Geral de Segmentação. – Brasília: Ministério do Turismo, 2006.

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