Palavras erradas

03 de agosto, 2019 - por Max Franco

8 livros

Mais um ensaio para a USP, uma dissertação de mestrado, um blog e algumas participações em coletâneas de diversas naturezas. Isso pode ser chamado de “obra”?

Na verdade, são os outros que podem dizer se fulano tem ou não uma obra. Obra nunca deveria ser coisa autoatribuída. Obra é homenagem. Afinal, só os olhos alheios são capazes de avaliar o peso (ou a ausência dele) de uma obra. O operário é aquele que produz, mas a obra é batizada pelas mãos que não a esculpem. Nesse caso, pode sim haver operário sem obra, mas – jamais – haverá obra sem artífice. Ele pode ser até desconhecido ou erroneamente atribuído. Mas sempre existirá.

O operário das palavras existe, e sou eu. Mas só você poderá dizer se há ou não uma obra.

Pois veja e diga. Mas veja. É um convite.

Aqui, deixo à vista um fragmento do novo livro: Palavras erradas.

É o fim da trilogia das palavras: Palavras aladas (2009) , Palavras amargas (2015) e, enfim, Palavras erradas.

Mas como os três mosqueteiros eram quatro, essa trilogia pode ter mais livros. Não sei. O futuro dirá (e eu talvez não escute).

A seguir, disponibilizo a primeira parte, os agradecimentos. Eles são intensos e curtos, como gosto do café.

Entretanto, as pessoas que merecem esses agradecimentos são grandes e ocupam muito espaço, na minha mente e alma. Elas se mudaram para esse endereço e talvez nem saibam… Ficarão lá por muito tempo ainda. É uma espécie de sequestro tácito.

– Seremos todos reféns de quem amamos? Talvez.

Agradecimentos:

A vida não é fácil.

Quer dizer: talvez seja para alguém. Há sempre gente com sorte, apesar de existir quem diga que não há essa coisa chamada de sorte. Mas sorte é igual às bruxas, “No creo en brujas, pero que las hay, las hay.”

Por mais que eu acredite ou desacredite em algo, não é essa crença que determina se esse algo existe ou não existe. Nós acreditamos porque gostamos de acreditar. Gente é bicho que crê.

Eu – por exemplo – creio (porque sinto na pele, nos ossos, nas costas e na cabeça) que viver é tarefa das mais difíceis. Tenho aí nessas quase 5 décadas de trânsito nesse mundo, tantas vezes doce e muitas vezes amargo, a impressão de que nunca me acostumarei ao que vejo, percebo e, principalmente, ao que me toca. Acostumei-me, porém, a ser desajustado, contrafeito e contrariado. Não grito, mas o meu sorriso é o mesmo que dou quando me oferecem algo que não quero. Sorrio, mas digo não.

Pois eu digo não a quase tudo que observo nesse mundo injusto.

Esse livro – portanto – é de negação. É um libelo contra tudo que reprovo, que é muito.

Essas palavras são erradas por isso. Mais que erradas, são equivocadas, anacrônicas, aleijadas. São palavras atiradas, não ao vento, mas na cara. Palavras incômodas, desnecessárias e gratuitas. Palavras escritas como quem cospe algo que não conseguiu engolir.

Entretanto – por fortuna (para não dizer “sorte”) – há quem deixe a vida menos dura e essas palavras menos erradas. São para essas doces pessoas os meus maiores e melhores agradecimentos: à Rachel Verano, que fez toda a revisão, arte e elogioso prefácio deste livro e, principalmente, jamais desistiu de publicá-lo; ao amigo Doutor Denilson da Silva Peres, que deu razão de existir à orelha de um livro; aos amados filhos, mãe, pai, irmãos e amigos, os quais me presenteiam todos os dias o que eles têm de melhor. São todos lenitivo e consolo, descanso e apaziguamento, coragem e iluminação. Sim: iluminação. São – todos – faróis na noite escura. E, por fim, à Rebeca Benevides Pinto, a primeira que leu e aprovou esse texto, mesmo dizendo que é demasiado cáustico. “É ácido, mas é seu melhor texto”, disse. Além de tudo, ela me ama. Bastaria isso para agradecê-la todos os dias.

Agora me resta agradecer a você, leitor. Livros só têm razão de ser se existir você. E você anda cada vez mais raro. Se você está aqui e não acolá, se você está com este livro nas mãos e não com outra coisa qualquer, essa atitude é digna de nota. Parabéns e obrigado.

Mas – devo lhe trazer uma questão:

Você que lê e (talvez) se flagre apreciando essas palavras erradas não será também um desajustado?!

Assinado: o Escritor Errado