Os sapatos furados

20 de novembro, 2019 - por Max Franco

Quando pus os pés na Itália pela primeira vez – há quase 30 anos – meus sapatos estavam furados.
Era esse o inventário: roupas que pediam pena, 100 dólares no bolso, nenhumazinha roupa de frio em pleno inverno, nem luva, nem cachecol, uma fome que queimava as entranhas apesar do frio insuportável.
Um amigo me fez a caridade de me presentear outro par de sapatos, e atirou o primeiro no cesto de lixo.
Eu sou pobre hoje, mas naquela época, eu era pobre com prática de descer do ônibus sem pagar. Era pobre com moderação, mas pobre com pedigree de pobreza. Pobre margarina em vez de manteiga. Pobre laranja e banana em vez de uva e maçã. Pobre sem lanche na escola, sem plano de saúde, pobre cheio de sem.
Pobre da roupa nova só no natal.
Fome? Nada disso!
Fome só na Itália. Afinal não queria gastar a única grana do bolso (“precious” 100 dólares!)
Depois disso, arrumei uns trampos nada glamourosos: linha de montagem, medidores de energia e, por fim, o mais bacana de todos: o mercadinho da pequena cidade. Praticamente o shopping center!
Carrega caminhão, descarrega, balde e esfregão, coloca preço naquilo, caixa… e o melhor: desde que comecei a trabalhar no mercado, nenhum amigo passou mais fome ou sede (principalmente, sede!).
Conto tudo isso porque foi duro e difícil e quero me gabar da resiliência demonstrada?
Não. Conto tudo isso porque amei cada mínimo momento! E foi mesmo muito duro e difícil e uma das maiores aventuras da minha vida.
É que no meio tempo, o garoto de 20 anos realizou alguns dos seus maiores sonhos: Vaticano, Capela Sistina, Pietá, Coliseu, Roma, Florença…
Nenhum destino me empurrou tantas lágrimas de emoção do que a Itália. A Itália sempre fora, desde pivete, o depositário dos maiores sonhos de lugar.
Até mesmo hoje, depois de tantas vezes em território italiano. Mas não importa a vez, importa que jamais é minimamente ocasional ou casual. É verdadeiramente especial. É parente do sagrado.
Dessa vez, não foi diferente. Eu me congratulo por todas as vezes que posso – in loco – contemplar belezas consagradas como o Duomo de Milão, a galeria Vittorio Emanuelle, as obras de Leonardo, a casa da Ferrari e de Luciano Pavarotti, a pizza e o gelato da esquina, a música em todo lugar, todos os lugares em todos os lugares?
Por que tudo é tão especial?
– Porque tanta coisa é tão única e sempre parece ser a última vez;
– Porque fez frio e choveu de madrugada e eu abri a janela para escutar a chuva, sentir ainda mais o frio e me enrolar mais ainda com o cobertor;
– Porque caminhei nas ruas sem pressa assistindo ao trânsito das gentes tentando captar fragmentos de frases para especular sobre os motivos daquelas palavras;
– Porque tomei mil cafés macchiatos com croissants de nutella despudoramente deliciosos;
– Porque raramente vejo algo só, mas reforço a beleza dos lugares com as minhas narrativas;
– Porque sei que ajudo os cegos a verem e os surdos a ouvirem;
– Porque já não tive, depois tive, muito tive, depois não tive e ocasionalmente tenho não sei se de novo;
E, principalmente,
– Porque meus sapatos eram rotos e furados quando pus meus pés nessa terra pela primeira vez.

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