A visão de Vincent

31 de outubro, 2016 - por Max Franco

Li recentemente uma teoria de algum “pesquisador” alegando que Vincent teria algum problema de visão.
“Segundo alguns, Vincent teria sofrido de xantopsia (visão dos objetos em amarelo), por isso exagerava no amarelo em suas telas. Esta xantopsia pode ou não ter surgido pelo excesso de ingestão de absinto, que contém tujona, uma toxina. Outra teoria seria que doutor Gachet teria indicado o uso de digitalis para o tratamento de epilepsia, o que poderia ter ocasionado visão amarelada a Van Gogh. Outros documentos relatam ainda que na verdade Van Gogh seria daltônico.” (Fonte: wikipedia)
Vamos, antes de qualquer coisa, repetir a fonte: wikipedia. Isso, o “w” minúsculo não foi acidente. Todos sabemos que a wikipedia não é famosa pelo seu crédito e profundidade. Queria apenas saber quais seriam os argumentos e fatos que as fundamentariam. Existe algum fragmento nas centenas de cartas entre Theo e Vincent que evidenciaria os distúrbios visuais do pintor? Dr. Rey e Dr. Gachet, médicos que o trataram, declararam alguma vez que observaram problemas oftalmológicos em Vincent? Há alguma prova que Gachet indicou algum medicamento à base de digitalis para o seu paciente holandês? Vincent já não usava (e abusava) do seu famoso amarelo antes das internações?
Na verdade, ao contrário, em diversos trabalhos, Van Gogh consegue, como poucos, dominar com maestria os naipes da paleta. Ele afirmava, entre outras coisas, que existiam cores “complementares”. Que o azul complementa o laranja. O verde harmoniza com o violeta, e já o amarelo com o vermelho. No caso dos girassóis, ele se vangloriava por conseguir fazer uma quadro de “amarelo sobre amarelo”. Sem dúvidas, algo revolucionário até para os dias de hoje. Coisa de gênio! Como assim daltônico?
O que acontece é que a maioria das pessoas deste mundo padece de um cartesianismo crônico, de uma falta de criatividade aguda e de uma carência de sensibilidade abissal. Quem imagina o céu sempre azul não pode concebê-lo, de fato, laranja, verde, ou rosa, ou mesmo laranja, verde e rosa. Esse é o tipo de crítico que – sem nunca ter produzido nada digno de nota em toda a sua pobre vida – tem coragem de afirmar que El Greco tinha problema de visão porque pintava figuras alongadas ou que Botero deveria fazer redução de estômago. O fato é há crítico que padece de burrice crônica.
Gostaria de perguntar aos críticos, estudiosos e pesquisadores deste mundo de quais males sofreriam – também – Picasso, Modigliani, Da Vinci,  e para radicalizar de vez, Dali e Mirò.
Eu sei quem tem problema de visão. E não era Vincent, decerto.

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