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O setembro é amarelo, mas as pessoas são multicores

01 de setembro, 2021 - por Max Franco

Suicídio de crianças e adolescentes: eis um assunto que ainda é tabu.

A verdade é que ninguém gosta de falar de suicídio, ainda mais quando se trata do praticado por alguém jovem. Suicídio é uma daquelas palavras que pede volume baixo nas conversas furtivas perto das paredes, ainda mais das escolas. O problema é que, quando ocorre, fora os dedos apontados para uns e para outros, todos sabem que poderiam ter agido diferente. O suicídio de uma criança ou adolescente é sempre o resultado de um somatório de ações e omissões no qual muitos atuaram, foram passivos, ou pior: ambos.

O mês do setembro amarelo é um movimento social que se propõe a conscientizar a sociedade sobre as causas e consequências do suicídio propondo ações de cuidado e acolhimento de pessoas que precisam de suporte emocional e psicológico. Na escola, é comum que exista uma campanha de prevenção ao suicídio. Para tal, o setor de orientação psicológica da instituição, geralmente, produz textos reflexivos e alguma discussão em sala de aula sobre o tema. E fica por aí. Resolve? Nem perto.

A primeira pergunta que se faz quando alguém chega ao pronto de cometer ou tentar cometer o suicídio costuma ser a mesma: “Por quê?”

Já a segunda não é tão inovadora assim: “Quem são os culpados?”

Porque suicídio é como queda de avião. Nunca é apenas por um motivo, mas em virtude de uma avalanche de causas, as quais se avolumam e acabam influenciando que alguém, num momento de desespero e privação de sentidos, não tenha como enxergar outra saída. Do quê? Da dor. Um sujeito que se mata, o faz porque não suporta mais sofrer. O suicídio não é uma escapatória da vida. Ninguém se mata porque está feliz. O suicídio é uma estratégia de fuga do sofrimento, quando ele aparenta ser infindável, inapelável.

Quando se fala de uma criança ou adolescente, a escola é, muita vez, o ambiente que pode fazer toda diferença na prevenção ou no estímulo ao suicídio, já que é o seu espaço de socialização e o lugar onde ele procura a sensação de pertencimento. Se, por sua vez, a escola é sinônimo de não aceitação, perseguição, bullying e, até, de agressões físicas, ela se transforma em um ambiente tóxico que gerará problemas na formação da identidade, no desempenho acadêmico, na socialização e, inclusive, pode afetar a saúde desta criança ou adolescente.

Portanto, mais do que uma campanha pontual, a escola deve trabalhar – todos os dias – para a criação de um ambiente saudável, de respeito mútuo, no qual alunos se sintam à vontade para atuarem e se se desenvolverem como desejam, para expor suas ideias e se envolver nas mais diversas ações.

Os profissionais de Educação precisam compreender – e com urgência – que a escola não deve agir somente quando tem que lidar com algum caso visível de bullying, automutilação, depressão ou suicídio entre seus alunos. A prevenção ao suicídio perpassa por um processo diário que deve atentar para a promoção de ações que aumentem o bem-estar dentro da escola. Quando se fala de bem-estar, obviamente, não estamos falando apenas do corpo discente, mas também do docente. Professores e educadores estressados, burnoutizados e levados ao extremo das suas forças em virtude de cobranças elevadas e carga de trabalho excessiva, certamente, não conseguirão  criar este clima positivo e benéfico para toda a comunidade. A verdade é que pessoas infelizes não são muito competentes em promover a felicidade. E quem está feliz atualmente, ainda mais em território brasileiro? Talvez só a Juliette.

A escola, então, precisa colocar no seu cotidiano cada vez mais oportunidades para que os seus membros possam expressar suas emoções e tratarem sobre seus problemas. Além disso, é fundamental que existam  dinâmicas conduzidas por profissionais especialistas (de dentro ou de fora da escola) que trabalhem as emoções de alunos e profissionais. Afinal, nem tudo passa apenas pelo cognitivo e racional. Os estudiosos do tema já provaram que o homem não é um ser pensante que tem emoções, mas um ser emocional que pensa.

E a família?

É claro que a família exerce um papel essencial neste enredo.

A questão é que não é incomum – nos dias atuais – que os pais “entreguem” seus filhos à escola. É uma espécie de terceirização da guarda dos filhos, principalmente, quando se fala da escola particular. Alguns pais que pagam caro desejam fazer um “pacto velado” com a escola. Este acordo tácito determinaria o seguinte “Nós pagamos e vocês cuidam dele! Ou, melhor, vocês assumem ele!” A Escola – para estes pais – virou mais do que um serviço que entrega ensino e educação formal, mas, formação integral. Há algumas escolas que, inclusive, pautam o seu marketing nessa promessa holística de formar integralmente seus alunos. Mas, basta pensar sobre este assunto por 2 segundos para entender que esta é uma proposta utópica. Escola ensina, pais educam. Escola pactua com a família em contribuir com a Educação. Escola pode e deve se oferecer a ser parceira dos pais nessa formação integral, mas não é função dela assumir esta missão sozinha. O importante é que todos os envolvidos nesse roteiro saibam o que conseguem entregar e, logicamente, se ajudem nesse processo. Para isso, é essencial que os valores da escola conjuguem com os da família. É bom sempre lembrar que é a família que escolhe a  escola mais apropriada para seus filhos. Do mesmo jeito que um sujeito não pode entrar em uma padaria e pedir prego, não dá para exigir da instituição de ensino que ela assuma completamente a Educação dos seus filhos. Tampouco funciona pedir a parceria da família se os profissionais da Escola não promovem canais de interlocução, escuta ativa e sincera abertura para se modular. O problema é que a Escola também não quer sair da zona de conforto. E escola é troço engessado.

Outro fator essencial está no acompanhamento individualizado dos alunos. A Escola, geralmente, tem dificuldades de particularizar e customizar as suas ações, porque é sempre mais fácil atuar com o todo do que com os indivíduos. Afinal, cada ser humano é um universo de peculiaridades, demandas e, por isso mesmo, problemas. E quem gosta de problemas? Educador deveria gostar. Ou, ao menos, gostar de resolver problemas! Qual profissão existe que não se proponha a resolver problemas? Nenhuma. A do educador resolve o problema da ignorância. Quem entra numa escola, em outras palavras, pede isso: “por favor, solucione a minha falta de saber, me ajude a entender o mundo e seus fenômenos para que eu possa me situar e, inclusive, ser capaz de transformar este mundo”. A verdade é que, de fato, quem se matricula em uma Casa de Educação pede para ser ajudado a ser cidadão.

Por isso, o suicídio de qualquer pessoa e, ainda mais, de jovens, é uma falência pessoal e coletiva. É um caso no qual, senão todos, ao menos diversos indivíduos falharam. Nessa situação, faltou justamente o elemento que todas as pessoas em situação de fragilidade mais necessitam: atenção. Todos, geralmente, se defendem alegando que não sabiam. O agressor diz que não sabia que estava praticando bullying e que suas “piadas” feriam. Era tudo brincadeira, afinal! Os pais afirmam que não perceberam nada, mesmo quando o comportamento do filho se transforma radicalmente. A escola, por sua vez, demonstra surpresa. Seus profissionais entram em estado de choque, atônitos com a dureza do fato e se perguntam “o que mais poderiamos ter feito?”. Mas o fato é que fizeram pouco ou quase nada. Fizeram campanhas, falaram superficialmente do tema, ministraram aulas de ensino religioso ou algo parecido. Porém, basta aprofundar um pouco mais a reflexão para que todos consigam vislumbrar o quadro inteiro e não apenas um peça do quebra-cabeça. O fato é que aquela criança ou adolescente gritava, clamava, suplicava por ajuda e ninguém lhe deu.

É fundamental, portanto, que haja este acompanhamento individualizado e, quando forem identificadas demandas, recomendar profissionais para o atendimento dos alunos emocional e psicologicamente abalados. E, ainda mais, quando ocorre um suicídio dentro do grupo. Afinal, desgraçadamente, muita vez uma ideia leva à outra e adolescentes são muito influenciados pelos demais. Suicídio, portanto, pode ser contagioso.  Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), transtornos mentais correspondem a 16% das doenças e lesões em adolescentes, sendo a depressão a mais frequente. No Brasil, o número de pessoas com idade entre 10 a 19 anos que cometem suicídio tem inflado nos últimos anos, principalmente nas grandes cidades. Adolescentes são muito susceptíveis aos transtornos relacionados à imagem, corpo e relacionamentos que podem aparecer nessa fase. Portanto, a escola que se exime de tratar destas transformações naturais da adolescência e que não esteja atenta a problemas de socialização, dificuldades de aprendizagem, mudanças bruscas de humor, comportamento antissocial, irritabilidade, automutilação, bullying, agressividade e verbalização de desejo de morrer, essa escola está comprando a passagem destas crianças para um lugar tóxico que, por sinal, se localiza no próprio endereço.

Por fim, precisamos encarar a questão com maturidade: não é fácil educar nem sequer ensinar. Pessoas são complexas. Crianças e adolescentes, mais ainda, porque são acessadas por um número incomensurável de emoções com as quais eles nunca tiveram que lidar antes. Eles estão estreando nesse palco e não conhecem as falas. Não é realmente simples. Basta que nos esforcemos um pouco para nos lembrarmos de como era a nossa juventude e entendamos melhor os desafios desta fase. Para um adolescente, o seu grupo ou a falta de um grupo é questão central, inexorável. A verdade é que um adolescente que não é aceito pelos demais é um pote até aqui de mágoas.

Uma gestão oportuna do clima e da saúde mental da escola não deveria focar apenas em prover textos e palestras durante o setembro amarelo. Não deveria ser algo pontual, mas sistemático. Para tal, é imprescindível uma boa preparação dos educadores quando se fala de solução de conflitos, orientação e apoio aos alunos. Antes de tudo, os profissionais devem saber identificar comportamentos de risco dos alunos com o intuito de lhes oferecer suporte e, claro, comunicar aos gestores e à família, poupando, assim, o sofrimento da criança ou adolescente.

Fora estes aspectos, há ainda aquelas escolas que só dão visibilidade para os alunos que apresentam rendimentos acadêmicos acima da média e, com isso, perdem a oportunidade de mostrar inúmeros talentos que, muitas vezes, só vêm à tona depois que estes garotos e estas garotas saem da escola. Eis um grande desafio para qualquer escola:  valorizar seus artistas, esportistas, gamers, cozinheiros, inventores, poetas, escritores, youtubers, desenhistas, cantores, dançarinos… da mesma forma que ressaltam seus alunos com melhores notas. O novo Ensino Médio se propóes exatamente a este projeto.

Nós, escola e família, precisamos, então, nos debruçar sobre esta questão com dedicação, mas, principalmente, com melhor preparo e maior background, fundamentados em estudos com o intuito de fomentar ações voltadas às crianças e adolescentes que venham a desenvolver o fortalecimento de fatores de proteção, bem como também trabalhar o desenvolvimento de habilidades emocionais que pavimentem as estradas destes os alunos na compreensão de suas emoções e na solução dos próprios problemas.

A escola, a rigor, deveria ser um local de promoção e fortalecimento, e não de fragilização destas crianças e adolescentes.

Escola deveria ser um lugar de ser feliz.