Enfim, Irlanda

04 de abril, 2016 - por Max Franco

Sob os auspícios de San Patrick

Irlanda: agora entendo U2, Sinead O’Connor, The Corrs, Cranberries, Clannad, Enya, James Joyce, Oscar Wilde, Jonathan Swift…
– Num lugar como a Irlanda, ou você é criativo ou sucumbe.

Desde que ouvi Sunday bloddy sunday pela primeira vez, quis ir para a Irlanda.
Não quero admitir o meu lado determinista ou positivista, mas sou um daqueles caras que acredita que o meio ou faz as pessoas ou – ao menos – contribui demasiadamente para essa construção.
Não somos frutos do meio, apenas, mas, também.
Frutos do meio, do tempo, da genética, da cultura, dos costumes… Frutos de condicionantes, de acasos e, é claro, por sorte, também das próprias decisões. Há sempre quem determine seu destino apesar destes condicionantes.
Os irlandeses são a prova disso.
Lutam desde tenras épocas. Lutas contra o tempo, contra os ingleses, contra as religiões, contra eles mesmos. Lutam até contra as lutas. (E lutam, principalmente, nos bares, depois de algumas Guinness bem consumidas!).
Tanta luta só podia gerar gente assim, não conformada, desajustada, inquieta, criativa, artista.
Fui para tão longe, para a Irlanda e encontrei o Brasil. Brasil em todos os lugares. Em todas as esquinas. Brasileiro fazendo turismo, comprando, trabalhando nos bares, estudando, alegando que está estudando para trabalhar. Brasileiro a dar com o pau. Na verdade, vi mais brasileiro na Irlanda do que em toda a Europa. Talvez porque na Europa estamos espalhados e, já na Irlanda, concentrados.
O que fazem estes brasileiros?
Dizem que vão estudar inglês. (Alguns até estudam mesmo!).
Eles têm, comumente, três horas de aula de inglês por dia. Nas outras, falam português.
Como assim?!
Simples: brasileiro mora com brasileiro, trabalha (quando trabalha) com brasileiro, namora (quando namora) com brasileiro e quando não está fazendo nada também está com quem? Você já entendeu. É uma praga de brasileiro nessa Dublin!
Para piorar, ainda vigora aquela preconceito básico do nativo contra nós (sei lá por qual motivo!).
Mas esse preconceito existe e, inclusive, pode tomar cores fortes. Há uns sujeitos denominados “nacquers” (batizados pelos brazucas com o carinhoso apelido de nanás) que não se incomodam em – de vez em quando – agredir imigrantes. É fácil de se identificar um naná. Geralmente, ele usa um moletom surrado, tem uma lata de cerveja na mão (bancada pelo estado) e poucos dentes.
Em outras palavras, se você quiser aprender inglês, faça uma coisa: não vá para Dublin! Sugiro-lhe uma cidade pequena no sul dos Estados Unidos, uma vila no norte da Inglaterra, uma comunidade cristã na Austrália, ou mesmo, a mais inusitada de todas, trazer um grupo de nativos em língua inglesa para o Brasil e ir morar com eles.
Não vá pensando que sou contra intercâmbios para a Irlanda. Longe disso. Sou sempre a favor de experiências fora da terra natal. Observo como todos estes jovens evoluem depois de meses distantes dos mimos da família.
Nós, brasileiros, temos o péssimo hábito de cobrir nossos filhos de todo os tipos de privilégios e confortos. Um adolescente de classe média vive como um rei. Não faz a sua cama, não prepara o seu café, não lava, não tira da máquina de lavar, não passa a sua roupa, não varre a sua casa, não aceita qualquer roupa, não limpa o seu banheiro, não sabe cozinhar nem quer aprender, não anda de transporte público, e por aí vai repleto de não’s. O garoto é um não ambulante. Ao terminar o ensino médio, é capaz de resolver uma questão de logaritmo, mas não sabe nem sequer pegar um ônibus para o centro da cidade.
Nós, infelizmente, não preparamos os nossos filhos para a vida. E, pior, lhes informamos submiliminarmente que sempre vai haver alguém para resolver os seus problemas.
Na verdade, no afã de cuidar e de proteger, deformamos. Somos todos imbecis. E eu me incluo nessa imbecilidade, porque também superprotejo meus filhos.
Uma das maiores funções de um intercâmbio é esta: preencher essas lacunas que a péssima educação familiar brasileira deixa abertas.
É um caso simples de se mirar num alvo e de se acertar outro.Eis o resumo que faço de um intercâmbio na Irlanda: um problema de mira.