Com quem ando

13 de abril, 2016 - por Max Franco

A pedidos de alguns alunos que me acompanharam na Euro215, vou, mais uma vez, resgatar um texto extraviado no tempo:

Dizendo com quem ando

Viajar é coisa mnemônica.
Eu sei. Viajo faz tempo.
Aos 20, joguei uma mochila puída nas costas com roupas mais anarquizadas ainda e fui viver um ano de aventura na Itália. Foi a primeira grande viagem. De lá para cá, só para a Europa, foram 15. Pois é, viciei.
Devo confessar que não estou bem seguro de que sei bem quem sou. Sei, no entanto, onde estive, com quem estive, quando estive. Sempre tive mais noção do onde do que do quando. Sou quem sou porque estive e porque estarei. Sou um sujeito em trânsito, um nômade hodierno, um migrante eternamente em busca, indo e retornando. Foi tanta estrada que nem sei se não sou mais do asfalto que do tijolo. Sou alguém se deslocando.
Por que faço essas digressões gratuitas e desnecessárias?
Porque esse filme tem mais de um protagonista.
Bem mais de um, na verdade!
Hoje, em Zaragoza, num velho restaurante defronte à Catedral do Pilar, vários fantasmas de viagens passadas vieram ter comigo. Ofereci-lhes melão com presunto e uma taça de sangria gelada. (Recomenda-se ser sempre gentil com fantasmas!) Aceitaram e entabulamos um longo e silencioso papo.
Se Viajar é bom, melhor ainda é “viajar com”. Há destinos maravilhosos estragados por gente chata. E, por sua vez, lugares sofríveis salvos por gente boa.
Eu tive sorte com o onde e com com.
Eu costumo dizer: não se conhece tanto uma pessoa morando com ela. Conhece-se mais, viajando.
Eu posso dizer envaidecido: tanta gente maravilhosa dividiu estradas comigo, e dividiu como quem compartilha um cigarro ou um copo de cerveja. Ambos cônscios do prazer partilhado, comungado. Paisagens condivididas jamais são esquecidas. Emoções repartidas não só têm a capacidade de nos marcar eternamente, mas nos unem. Tornamo-nos unidos pelo segredo mais relatado que existe: as descobertas da jornada. Façanhas confessadas voluntariamente, mas, nem por isso, compreendidas. Porque, toda viagem é exclusividade, apenas, do viajante. A viagem é do viajante e de mais ninguém!
Por isso, todo viajante é, a rigor, cúmplice do seu companheiro de estrada. Eles são – igualmente – vítimas e réus dos seus dos próprios desajustes. Porque toda viagem requer conspiração e conluio. Viajar é fugir das prisões do tédio, é escapar dos velhos limites da sua zona de conforto, é matar o comodismo e a preguiça, é romper com a mesmice. Afinal, é esse o grande ímpeto do viajante: a busca pelo novo!
Eu tive os meus cúmplices, e como eram bons!
Hoje, me lembro de vocês, amigos. Companheiros, por exemplo, de tantas Euros. Tantos de vocês nem sabem o quanto são lembrados e queridos. Mas são. E são demais!
Gostaria de poder dizer a cada um como ainda escuto as suas vozes, como ainda rio das suas piadas, como ainda me emociono com as suas emoções. Adoraria poder lhe dizer, meu amigo, minha amiga, mesmo que não nos falemos ou não nos vejamos há mais tempo do que deveria, que você é especial para mim. É especial porque vivemos algo único juntos.

Espero, também, viver momentos de tal grandeza e intensidade com esses novos garotos. Sei que é isso que desejam: grandes emoções, muitas descobertas, e a inefável sensação (viciante, contagiante, intoxicante) de se sentir e de se saber vivo.

( e de longe, consigo até ouvir o sussurro da velha raposa repetindo:
– Cativa-me! Cativa-me! )