Um abraço grego

19 de julho, 2016 - por Max Franco

Ela chegou como um raio de sol após a tempestade. Ela não era bonita, bonita era a minha mãe. Ela era uma apoteose. A consolação depois da angústia. O abraço para o solitário.
Eu era o solitário e bem que queria um abraço. Dela.
Mas, ela foi para outra mesa. Esse era o resumo da minha vida: elas sempre ocupando mesas longe de mim.
Atrás da Afrodite, lá no alto, nada mais, nada menos, do que o Parthenon, o templo dos deuses do Olimpo. Grande e belo como merecem os deuses. E eu fiquei ali, estático, admirando os dois monumentos. Ambos proibidos para os pobres mortais.
Mas como sou teimoso, apesar de desinteressante, sorri para a divindade de cabelos negros e pele dourada. O sorriso não poderia ter sido pior recebido. Ela me olhou como o campeão olha para o rival estirado na lona. Era um olhar de Davi para Golias. Um olhar que dizia “some, perdedor, que fui eu que venci!”
E vencera. Lógico que sim. Afinal, eu não sou um Apolo de beleza. Nem tampouco sou feio. Fosse feio mereceria nota. Esse era o meu problema: normalidade demasiada. Nada digno de mera olhadela, ou detentor de graça para motivar riso. Normal. Apenas dotado da medíocre ordinariedade dos muito comuns.
Ao lado dela, nas outras mesas que cercavam aquele café ao ar livre incrustado no velho bairro de Plaka em Athenas, tantos miravam a beleza da moça. E os olhares de todos migravam da admiração à cobiça. Por que ela olharia logo para mim, o mais normal dos mortais?
A boca amargava a frustração de mais um abandono. O pior dos abandonos. O não antes de qualquer sim. A agonia do velho e sofrido “se” mais uma vez me apunhalando a consciência.
Nada me restando, abocanhei um pouco do iogurte que tinha à mão, até para aplacar o amargor da decepção e saboreei o doce dos morangos, dos frutos da minha terra, dos sabores da minha gente, sabores tão antigos quanto os deuses do meu povo. Até que, num rompante, uma ideia maluca se agitou na minha mente. Por que não? A música já soava na praça, por que não dançar?
Então, me ergui, hesitei, hesitei de novo, olhei para ela que me fitava com uma interrogação nos olhos  e dancei. Dancei como dançam os gregos. Dancei a sirtaki como dançou Zorba, o grego, no famoso filme. Dancei mandando às favas a timidez e o bom senso. Dancei como se não houvesse mais nada do mundo, nem antes, nem depois, nem aqui, nem acolá, nada além daquela música. Dancei porque os gregos dançam quando estão felizes e, mais ainda, na tristeza. Como eu estava arrasado, merecia dançar.
Sei lá por que, a minha dança contagiou os passantes, gregos e turistas, velhos e garotos, felizes e angustiados. E todos ao meu redor, pouco a pouco, se juntaram à dança.
Isso só me soltou mais o pés e estimulou mais o baile. E eu, o mais normal e comum dos mortais, por um instante, durante um mero segundo – eu sei – eu dancei como dançam os deuses. Com uma emoção olímpica.
Alguém pôs a mão no meu ombro e o apertou. Abri os olhos e ela estava lá. Ela dançava comigo, a Afrodite. O sol brilhou mais forte iluminando as ruínas da velha Grécia, o antigo mar Egeu e o templo dos deuses. Nosso templo. Nós, os deuses.