A beleza do nome e a escola certa

06 de setembro, 2016 - por Max Franco

Eu estava acostumado a ser invisível.
Afinal, havia sido uma vida inteira na escuridão, ocupando aqueles cargos da sociedade que ninguém consegue perceber: garçon, caixa de supermercado, gari, feirante…
Há dessas funções que, infelizmente, ninguém nota muito. É raro que lhe peçam o nome ou opinião. Que lhe olhem nos olhos ou sorriam. É o anônimo cotidiano. Aquele de utilidade inquestionável, mas subestimada. O mundo funcionaria sem nós, os invisíveis? Duvido. Mas, poucos nos voltam o olhar, aceno ou obrigado. Somos os desolhados, desacenados, desobrigados…
No começo, a gente estranha muito, depois menos, pouco. Depois, a gente se acostuma a ser ninguém. Um ninguém ambulante.
Eu faço parte desta leva de gente desamada. Ou fazia…
– Bom dia, Juvêncio! – cumprimentou o professor sorridente.
– Bom dia, Juvêncio! – soltou a garota correndo pelo corredor.
– Bom dia, Juvêncio! Qual foi o resultado do jogo ontem? – perguntou o juiz que era pai de aluno.
– Ganhamos. Desta vez, deu certo para nós. – respondi animado.
– Olá, Juvêncio! Tudo bem por aqui? – interrogou o Diretor. – E o fim de semana?
– Tudo tranquilo, Professor Ricardo! Tudo tranquilo!
– Você deixou o chão sujo, Aninha! – falei para menina de cabelos loiros.
– Tem razão, Juvêncio! Tenho que limpar, não é? – respondeu a garota meio envergonhada.
– Sem correria no corredor, Pedrinho! Você vai acabar escorregando!
Tudo bem, Juvêncio!
– Juvêncio, sabe se sexta é feriado?
– Claro que é, professora!
“Juvêncio”, “Juvêncio”… De tanto ouvir, nunca achei meu nome tão bonito.
Como é bom ter nome e identidade, principalmente depois de tantos anos sem ser notado ou visto.
Depois de anos relegado ao nada, você começa a achar que realmente é nada. É que a gente se acostuma. O mundo lhe convence. É como se houvesse um mutirão, sabe? Todos lhe repetindo que você não merece tanta atenção. Que você não é importante.
Pois aqui, sou feliz, porque o tempo inteiro em que escuto meu nome, percebo que existo e que as pessoas gostam da minha existência. É bom existir depois de tantos anos inexistindo.
Não penso em sair da Escola. Tantos passam por aqui. Chegam pequenos e saem homens e mulheres. Adoro a sensação de que, nem que seja só um pouquinho, eles levam algo de mim.
E eu que mal existia, me expando. Porque me espalho em todos que passam por aqui.
Assim, é meio louco, mas penso nisso: existirei por muito mais tempo que vou existir.
Afinal, não é isso educar? Deixar algo de nós em todos que passam pelas nossas mãos?
Esta é a minha Escola, a nossa Escola. Tenho orgulho de dizer que é minha ou nossa. Todos dizem, inclusive, muito tempo depois que a deixam. “Minha Escola”, destino das maiores e melhores saudades. Onde cada local tem uma história, ou várias. Lugar de descobrimentos, conhecimentos e amizades eternas. Pedaço de mim que existe fora de mim. Porque Escola é mais que prédio, é gente.
Há lugares assim, que tem endereço na rua, mas, principalmente, endereço na memória. A gente volta e visita, e é feliz.
Essa é a Escola. Mais do que um local onde a gente aprende, é um local que nos compreende.
A sua escola não funciona deste jeito?
Que pena! Se podemos fazer escolhas de lugar para estar, deveríamos sempre fazer pelos que nos faz felizes.
Esta é a escola onde trabalho. Sou funcionário de serviços gerais. Faço limpeza, ajeito umas coisinhas, transporto material… No começo, pensava que seria invisível mais uma vez. Mas, não nesta escola. Aqui, as pessoas não só educam, são educadas. Neste lugar, tratam a todos com respeito e dignidade, não importando o seu cargo ou o seu estudo, somos todos educadores. É o que dizem e repetem o tempo todo. Professor educa. Funcionário educa. Pai educa. Estudante também educa. Nós educamos e somos educados. Essa é a nossa missão.
– Juvêncio?! – alguém me chama.
– Pois não! – Este é o meu nome. O nome mais lindo do mundo!