Quanto vale um afeto?

15 de setembro, 2016 - por Max Franco

 

– Há quantos anos você exerce a sua profissão? – perguntou a jovem jornalista.
– Há mais de vinte anos. Comecei ainda garoto. – gracejou o homem. – Mentira, eu tinha quase trinta. Mas, não vá fazer contas que é indiscrição.
– Você gosta do que faz?
– Há dias nos quais  preferia ser milionário ou jogador de futebol. Ou ambos, se possível. Mas, na verdade, gosto. Saberia fazer pouca coisa a não ser o que faço.
– Quais as principais características necessárias para um profissional do seu ramo?
– Beleza, charme, sex appeal…                                                                          – Não vou rir se não vai parecer que é sarcasmo.
– Menti de novo, não foi? – riu o homem. – Na verdade, um bom vendedor de carros precisa conhecer seu produto e se comunicar bem com seu cliente.
– O que é se comunicar bem?
– Empatia é a palavra. A regra de ouro para qualquer relacionamento. Colocar-se no lugar dele. Entender o que ele quer e precisa. Antes de tudo, no Brasil principalmente, trocar ou comprar um carro é realizar um sonho. O meu papel é facilitar este sonho.
– Essa é uma visão bonita da sua função…
– Bonita, quase poética. Mas, para mim, bastante real. Eu saio de casa todos os dias para auxiliar que sonhos se realizem. Só há algum sentido no que se faz se você dá sentido, não é?
– Mas, me fale mais sobre o que é se comunicar bem.
– Acho que é, principalmente, saber contar histórias. O cliente que chega aqui quer saber do carro, das condições de pagamento, dos acessórios do veículo, da sua qualidade, mas também quer ouvir uma boa história. Todos amam histórias.
– Pois me conte uma boa história.
– Claro que conto. Depois de anos nessa profissão, é fácil colecionar belas histórias. Vou lhe contar do Adamastor. Nunca vou me esquecer do nome daquele velho: Adamastor. Ele veio aqui oito vezes. Ele nunca tivera carro, sabe? Aquilo não era uma mera compra, era um evento! Certamente, também ia a outras concessionárias. Mas, veio aqui oito vezes. Eu sempre o atendi. Embora passasse horas por aqui fuçando tudo, ele não decidia por nenhum carro. Ele apenas vinha e pesquisava. Queria saber os detalhes de cada carro. Até que um dia, ele decidiu. Estava convencido de que a melhor compra seria aquele carro.
– Você se recorda qual era o veículo?
– Claro! Era igual a este, só que prata. O ano também era outro. Porém, sem dúvidas, era o melhor custo-benefício. Um carro bonito, econômico, resistente, exatamente o que estava procurando. Foi uma bela compra.
– E então, ele veio e comprou o seu primeiro carro?
– Nada disso! Ele veio, comprou e continuou sem carro.
– Como assim?
– Certo dia, ele voltou à concessionária, mas estava com uma mocinha. Era a neta dele. Como lhe disse, Adamastor nunca teve carro próprio. Andava de ônibus a vida inteira, mas economizara durante anos para comprar o carro da neta. Algumas vezes, inclusive, dispensara o transporte e percorrera a pé os sete quilômetros até o seu trabalho para reunir o dinheiro para adquirir o seu sonho.
– Qual era o emprego do Adamastor?
– Ele era mecânico. Conhecia carro como poucos, mas nunca teve o seu. Mas, na ocasião, ele realizava o seu sonho: dar um carro para a neta poder ir para a faculdade. O Amor é poderoso, não é verdade? Eu me lembro: ele pagou a primeira parcela em dinheiro. Boa parte da grana em moedas. Também me lembro que todos chorávamos na hora em que ela pegou a chave como se fosse uma joia e, quase sem acreditar, entrou no carro, no seu carro. Eu, a garota e o velho, todos, com lágrimas nos olhos. Aquele velho era um herói.
– Essa é realmente uma história emocionante, mas você deve ter muitas semelhantes…
– Sim. São muitos anos e muitas histórias. Fico feliz por ter ajudado a realizar sonhos. Carros podem ser mais que veículos, sabe? Carros podem maiores do que carros! E é isso que sou: mais do que um vendedor, sou um facilitador de sonhos. Eu me orgulho muito disso, de ajudar a realizar sonhos.