As narrativas do poder

17 de abril, 2016 - por Max Franco

Tratando do atual imbroglio nacional, levanto a seguinte questão:

  • Qual é a história mais convincente?
  • Faço essa pergunta porque será a narrativa  mais convincente que prevalecerá.

Veja só, meu caro leitor, não estou falando da história mais real, nem da mais justa ou mesmo mais produzida, porém da mais convincente. Não estou entrando em méritos nem sequer discutindo legitimidade. Estou apenas afastando um pouco a cortina e apontando para um detalhe. Qual? O poder avassalador da narrativa.
Os noticiários fazem referência amiúde a este elemento: cada um dos lados envolvidos nesta luta (de morte) pelo poder escolheu uma história para contar e usou todos os recursos que tinham à mão para difundi-la e repeti-la até que se tornasse, para alguém, ou para muitos alguéns, uma verdade a ser defendida. Isso é Storytelling.
Como digo no meu livro,  a técnica do Storytelling não é uma ferramenta de natureza boa ou má. Ela é como uma faca. Pode servir para passar requeijão no pão. Pode, também, ferir e matar alguém. A História o comprova. A narrativa é uma alavanca que ergueu cidades e belas catedrais, mas também erigiu muros infames e campos de concentração. Saber usar não significa usar para o bem. Significa apenas dominar a técnica.
Veja só o que vemos neste cenário atual:
Um lado se diz defensor da justiça, da democracia, da república e da constituição e, por isso, deve caçar uma presidente que supostamente cometeu crimes de responsabilidade tão graves que não há outro jeito senão apelar pela extrema atitude que é o impeachment;
O outro alega que a corrupção é endêmica, que todos os partidos a praticam e sempre praticaram. Que eles sim são os verdadeiros defensores da república, da democracia, da constituição. O governo fora traído pelo presidente da câmara que, por vingança, pediu a cabeça da presidente do país.
Em outras palavras: cada um conta a sua versão dos fatos onde, naturalmente, o bandido é o outro e ele é o herói. Um herói perseguido, traído, vilipendiado, que luta e se sacrifica (sofre pra caramba!) pelo bem comum.
É simples, cada um redige a narrativa que seja melhor para si e para sua causa. Cada lado heroiciza a si e sataniza o outro.
Você não é burro e sabe que neste roteiro, não é tão simples assim descobrir quem são os heróis e quem são os vilões. (Na verdade, alguns bandidos são bem evidentes e visíveis, bons de localizar. E eles estão em ambos os lados deste embate que denigre e machuca a nação.)
É bom que o cidadão saiba que o uso da narrativa para se beneficiar é uma ferramenta utilizada ampla e ininterruptamente pela política. Muitas vezes, com resultados catastróficos. Não é bom internalizar essas histórias sem, antes, ruminá-las bovinamente, inúmeras vezes.
É fato que adoramos histórias, mas não é em qualquer uma que devamos acreditar.
Bons contadores, storytellers de ofício, há milhares de anos sabem convencer. São, inclusive, pagos para isso. Patrocinados, geralmente, pela facção que tem mais poder ou mais dinheiro. Compreenda: a História é escrita pelos vencedores.
Alexandre, o Grande, pagava poetas e cronistas para relatar as suas vitórias. E ele era sempre pintado como audaz, corajoso e, é claro, honrado. Sempre foi? Duvido. Ninguém confessa iniquidades gratuitamente. ( A não ser que essa delação seja premiada).
Sugiro, meu amigo, que você escute as narrativas, mas não se deixe encantar facilmente pelas palavras doces pingando seduções, nem pelos heroísmos cantados não importa com qual volume ou por quem. Tenha cuidado com as odes sobre redentores e salvadores. Todo mundo se pinta como herói.  Mais cedo ou mais tarde, geralmente, eles pedem a conta pela história bem contada.

O storyteller, ao fim do entretenimento, passa sempre o seu chapéu.