Há peculiar e peculiar

10 de outubro, 2016 - por Max Franco

O Lar das Crianças Peculiares

 

Quando eu vi a inquietante capa do livro O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares na livraria, de cara já cogitei se não seria um livro da autoria do Tim Burton. Obviamente, logo percebi que não era, mas tive um lampejo de vidência e pensei “Como seria bárbaro se virasse filme e o Tim Burton dirigisse”. Meses depois, vi a minha previsão se materializando e dei ignição à minha maquininha de ansiar.

O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares, como muito sabem, é um o primeiro livro de uma trilogia escrita por Ransom Riggs com milhões de cópias vendidas no mundo inteiro. Pois bem, livro famoso + Direção de Tim Burton é igual a sucesso garantido, não é?

– De fato. Não é!

O livro seria do Tim Burton, a capa também, sem dúvidas, os personagens, entretanto, só faltou o filme ser do Tim Burton. Na verdade, a única coisa que seria dele não foi, porque o Tim Burton esqueceu o próprio em casa na hora do trabalho. Foi uma questão de extravio do autor, quando ele se perde de si mesmo.

Tim Burton, que ficou famoso pelas suas produções criativamente bizarras, como Batman, Eward mãos de tesoura, Os fantasmas se divertem e Alice no país das maravilhas, decidiu maneirar nos condimentos nesse seu novo filme. Mas, o que não deu para se entender e, certamente, frustrou muitos dos fãs do romance, foi a subversão tão acintosa da história. Afinal, uma coisa é adaptar o filme ao cinema, outra é fugir tão descaradamente.

É difícil compreender o motivo pelo qual o enredo do filme, em diversas ocasiões, não ter absolutamente nada a ver com o roteiro do filme. A única razão que me ocorre é o ego do diretor que, talvez com o a intenção de deixar uma marca sua, decidiu mexer logo no que não devia nem precisa, na história.

Não estou seguro de que o autor fez questão de manter no contrato alguma cláusula que viesse a reger a sua aceitação no caso das mudanças e adaptações para a telona, como ocorre, por exemplo, com JK Rowling e os livros do Harry Potter. Não acredito que um escritor permitiria tal mutilação na sua obra sem emitir protestos ou usar armas de fogo.

O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares está muito mais para um pesadelo do que para uma versão infantil de X Men. O livro é uma viagem criativa que, também, traz à tona questões profundas como a guerra, a morte, a intolerância e o alcoolismo. Tim Burton não entrou em nenhum destes territórios e acabou fazendo uma sessão da tarde com pitadas de bizarrices.

Em resumo: entre o livro e o filme, é melhor ficar no sofá, de casa.