Renato, meu amigo

03 de abril, 2016 - por Max Franco

Renato, meu amigo Renato, que nem me conheceu ao vivo, mas falou sempre tão bem do que eu sentia e do mundo em que vivíamos.
Você sempre foi leitor voraz e sabe que Brecht dizia:
– Miserável é o país que não tem heróis. Miserável é aquele país que precisa de heróis.
Pois é, esse é o Brasil de 2015. Um país sem heróis. Não existe mais Senna, nem o futebol de Pelé. Não há mais Cazuza, nem você, nem Elis. A esquerda, aquela na qual tanto apostávamos, se vendeu, nos traiu, teve a chance e fez igual, ou pior. A direita, nunca deu para esperar nada dela, a não ser a eterna canalhice. O centro foi para a praia.
A nação está órfã, desprotegida, desbatmanizada, deseroizada, refém dos coringas, dos crápulas nossos de cada dia. Que mundo é esse que sobra gente péssima?!
O povo tem medo, tem fome, tem nojo e vergonha. Somos um povo desorientado. Sem GPS, ou gurus. Alunos sem professor. Filhos sem pai. Aprendizes sem mentor. Não há bíblias senão aquelas dos dízimos e os mapas foram todos queimados.
A gente está perdida, Renato. Não confia mais em ninguém. Tem pânico de andar na rua. Hesita o lado de se pôr. Não sabe se vai, não sabe se fica. Não sabe se segue, volta, desce ou sobe. O Brasil não sabe. Nem sequer se sabe. É um país inteiro que ignora.
Veja só que tristeza se deparar com uma ignorância do tamanho do Brasil.
Eu vejo as pessoas, Renato, e elas estão tristes. Dos bares, se escuta as mais desesperadas gargalhadas. Das festas, gritos de cadafalso.
É um mundo, estranho, Renato. Pena não ter você aqui para tentar me traduzir alguma coisa ou me fazer companhia nessa histeria.
É isso que mais tenho hoje, meu velho amigo: pena. Pena pelo dia perdido, pelo amanhã extraviado, pelo fim das esperanças, pela fé desperdiçada, por tudo aquilo que poderia, mas não será.
Não será nem a pau.
Porque os heróis foram para a praia, ou mudaram de lado.
Porque não há heróis, nem os anônimos.
Todos querem saber apenas do seu.
E na busca maluca pelo seu não há como haver o nosso.
Com isso tudo, meu caro, fico até feliz de você estar tão longe…