Quanto mais técnicos menos humanos

25 de outubro, 2016 - por Max Franco

Clique aqui e veja o clip: Are you lost in the world like me

” Antigamente, não era qualquer um que podia contar histórias. Estes bardos tinham que dominar as técnicas da boa oralidade ou, mais recentemente, deter de colossais ferramentas audiovisuais, muito utilizados outrora. Eles eram menestréis, poetas, cronistas, historiadores, escritores, dramaturgos e, na contemporaneidade, diretores e cineastas.
O mundo mudou. Hoje, todos podem ser geradores de conteúdo. Afinal, temos à mão toda a tecnologia que precisamos para construir as próprias histórias e compartilhar com um sem número de pessoas, nos tornando, assim, atores, redatores, produtores, figurinistas e diretores dos nossos filmes e dos livros que tem o nosso nome como título.

A fogueira neolítica ficou portátil. Hoje está nas mãos. Aquece e ilumina, como a de outrora. Porém, também queima e destrói.
Com esse acesso repentino a recursos jamais antes nem sequer imaginados, as pessoas puderam apresentar as suas histórias da forma que desejam para um público cada vez maior. E, assim, se tornaram – todos – os próprios heróis das suas respectivas narrativas.
Nessa Jornada do herói eu-mesmo, aceitamos vários “chamados”, topamos diversas aventuras, enfrentamos os mais formidáveis inimigos e citamos o tempo inteiro diversos mentores. Que fique claro: Somos protagonistas. Não há lugar na rede social para coadjuvantes.
Cada um conta a sua história com as melhores locações, com os mais belos cenários.
Afinal, o 007 não frequenta o coletivo lotado nem come espetinho na esquina da Ipiranga com São João. A fogueira onde os quem conta a história e quem a escuta, hoje, não é mais a mesma, mas também não são poucos que se queimam e que distribuem brasas para os outros. A fogueira atual é hiperbolicamente maior, como também maior – imenso, na verdade – é o dano que a história contada pode causar.
É isso que todos precisamos saber: somos – todos – storytellers.
A questão é como estamos contando as nossas histórias. Se elas são “baseadas em fatos reais” ou meramente fictícias. Se são convincentes ou apenas reflexos de uma carência de afeição que as diversas linhas da psicologia se debruçam em estudar.
Não faltam, inclusive, estudos atuais que apontem que esses comportamentos acabam gerando mais sentimentos de frustração e de traumas do que se imagina. ”

ARTIGO APRESENTADO NA USP EM 2015