Matrioska

16 de junho, 2018 - por Max Franco

– A vida pode ser planejada, mestre? – perguntou o discípulo no intervalo da meditação.

– Não só pode como deve, garoto! – respondeu o ancião fitando a xícara fumegante de chá.

– Mas, não dá para prever tudo, mestre…

– Você perguntou se a vida deveria ser planejada e não se dava para ser prevista. Planejar é uma coisa. Prever, outra.

– Mas, há coisas que a gente já sabe que irão ocorrer, não?

– Vê a folha daquela árvore alta, rapaz? Ela vai cair. Podemos saber disso. Mas me diga quando e exatamente onde. Duvido. Prever é ver antes de acontecer. Isto é ver demasiado. Não dá. Planejar é saber o que fazer quando ela cair.

– A vida é complicada, mestre! – disse o garoto amuado.

– A vida é o que é. Somos nós que complicamos com a nossa mania de sempre querer controlar tudo e todo mundo. A vida é a onda. Você, o surfista. Tente se manter de pé e manter minimamente a direção. Mas você não manda na onda. Todo o sofrimento está concentrado nessa frustração: não alteramos as ondas. Elas são do tamanho que são, têm a força que têm e seguem os próprios caminhos.

– Eu posso dizer, então, que viver é frustrar-se?

– É. Porém é mais do que isso. É saber lidar com a frustração e com as boas surpresas. Viver é topar com as novidades de cada dia, mesmo que a novidade seja o mesmo. Em suma, a vida é como a Matrioska, garoto!

– Matrioska?

– Isso! Aquela boneca russa. Aquela que tem outra menor dentro, depois outra e daí por diante. A vida é um tipo de Matrioska, mas com uma diferença: nunca sabemos como será a próxima boneca. A gente sabe que tem Quando é feia, sofremos. Quando abrimos e é bonita, nos alegramos. Devemos, portanto, sempre sofrer com a esperança de que, no próximo momento, possamos ser felizes. Mas, também, não devemos nos sentir seguros e confiantes demais quando boneca seguinte é uma maravilha. Sabe por quê?

– Porque a próxima pode ser terrível.

– Exato, rapaz! Você tem toda razão. A vida é insegura. Que bom que é! Você tem apenas que continuar abrindo e abrindo novos dias. Continuar a abrir, eis o segredo.