Da natureza humana

06 de novembro, 2016 - por Max Franco

“Maldito do homem que confia noutro homem(…) Jeremias, 17.

Não fui eu que o disse e, sim, aparentemente, o próprio deus. Maldito aquele que confia em alguém. Ele nem diz “que confia muito” ou “que confia num animal”. Ele é claro: Maldito o homem que confia noutro.
Eu, em tempos pretéritos, na antiguidade, antes das invasões bárbaras sobre os territórios de Roma, podia facilmente ser alcunhado de “sujeito mais ingênuo do planeta”. Podia se dizer que não só acreditava no papai noel, mas era seu amigo de infância. É claro que, com uma natureza tão afável, não deu outra, colecionei mais decepções na vida que espinhas na adolescência.
Acho que, na verdade, só comecei a me dizer adulto quando consegui repetir mil vezes diante do espelho o mantra: “Não confio mais em ninguém”.
Repeti. Lógico que repeti. Mas falar é sempre fácil…
Felizmente, depois de tantos anos e cada um com as suas respectivas lições, aprendi que não só existe a triste e crônica tendência de os demais me decepcionarem, mas há também outra, talvez mais dolorosa, a descoberta de que eu também sou bom nisso. Ou seja, eu também desaponto os outros e a mim mesmo. Viver, então, é um fornecimento contínuo e recíproco de desilusões. Gente é pródiga em magoar.
Gente é só gente, e, pior, há muito tempo que padecemos dessa condição de ser tão pouco. Na verdade, a história da humanidade é, antes de tudo, uma história de crueldade. E, por incrível que pareça, é observando essa natureza intrinsecamente cruel que consigo garimpar na mina da alma humana alguma coisa parente da esperança. Por quê? É simples! Já fomos bem piores que somos.
Se levarmos em conta que os sacrifícios humanos, inquisições religiosas, escravidão, torturas e canibalismo não foram atitudes raras na história da humanidade, talvez consigamos enxergar alguma evolução no nosso comportamento.
O fato é que não podemos nos deixar cair em superestimações gratuitas. O homem gosta de ser cruel e sabe sê-lo melhor do que qualquer bicho. Animais, por exemplo, não costumam machucar ou matar por prazer. Nós, sim. Nós amamos odiar. Nada como um bom odiozinho para unir um povo ou uma família. Nada como uma boa queda para nos inspirar o riso e a pilhéria. O escorregão alheio, a execração pública, a humilhação na rua, a condenação e a execução na praça… Nós adoramos tudo.
Eu sempre acho que a cilização não pegou na humanidade. Embora tenhamos no nosso CV séculos de filosofia, de leis, de religião e de educação, basta uma fagulha para atear fogo no paiol da nossa selvageria. Mesmo de terno e gravata, munidos dos nossos melhores sorrisos, amparados pelos mais belos discursos, somos todos bárbaros. A diferença é que alguns mantem a linha, não dão pinta do seu vandalismo anterior, domam a besta socialmente, mas é tudo verniz. Basta ver o sangue alheio e todos salivamos.
Na França da idade média, por exemplo, a carne humana estava exposta nos mercados facilmente comercializada. Há registros de bebês devorados pelos próprios pais durante os longos cercos. Há marcas de dentes humanos nos ossos e sangue de pessoas na panelas dos nossos ancestrais pré-históricos.
É quando penso nessas práticas tão disseminadas no nosso passado, que me animo com o nosso presente. Está péssimo. Lógico que está. A humanidade foi uma experiência que deu errado, mas talvez deus não queira admitir o seu equívoco e virar a mesa para recomeçar o jogo.
A verdade é que Jesus precisaria descer à Terra mais umas 263 vezes para começar a provocar alguma leve mudança.
E, talvez,justamente porque saiba disso, ele, no alto da sua sabedoria, não esteja mais nem aí para nós.