A paciência acabou

11 de novembro, 2016 - por Max Franco

Quero abrir com uma questão: nós temos mais problemas hoje do que tínhamos há alguns anos?
Não sei se este momento atual é o pior da história, mas, decerto, vai ser lembrado como uma das épocas mais ranzinzas da presença do homem sobre a Terra. As pessoas estão de saco cheio e, por isso, o mundo anda tão mau humorado.
Digo isto porque não vejo razão para o mau humor? Lógico que existe. Temos matéria de sobra para argumentar em prol da impaciência crônica e aguda. Não daria nem sequer para iniciar uma listagem de desgraças que coubesse num só texto. Precisaríamos de uma Barsa para enumerar uma por uma, ou atualizando, uma “Wikipedia das mazelas modernas”. Afinal, são tantas…
Porém, pergunto: quando não foram tantas? Quando isso aqui foi o reino de Shangri-la? O século XX, por exemplo, foi o paraíso sobre a Terra? O que piorou tanto?
Aliás, são diversos os índices que demonstram os avanços da perfomance humana neste planetinha: a fome diminuiu, a paralisia infantil foi praticamente erradicada, os números de infectados pela Aids cederam, os avanços tecnológicos promoveram diversas melhorias, como, por exemplo, no campo da saúde, a expectativa média de vida do ser humano aumentou sensivelmente, como também, a quantidade de democracias no mundo. ( Até no futebol, houve conquistas. Já faz mais de dois anos que a seleção brasileira não leva qualquer goleada e até estamos em primeiro lugar nas eliminatórias para a copa!)
Há também estagnação e retrocesso? Somos seres humanos, como não haveria?
Um dos maiores aprendizados que tive ao estudar História foi entender que evoluções, atrasos e regressos aconteceram e acontecem o tempo todo. Na verdade, eles sempre conviveram. Falando de avanços, o ser humano não percorreu uma linha reta na sua história. Os momentos brilhantes rodando em autobahns alemãs foram raros. Não houve tantos renascimentos e iluminismos assim, afinal. A nossa estrada até aqui, na verdade, foi, a maior parte do tempo, esburacada, sinuosa, íngreme e repleta de becos sem saída, abismos e muita marcha a ré.
Então, repito a pergunta: o que justifica tanta impaciência?
Por que tudo hoje é motivo para briga? Protesta-se por tudo e a todo momento. Protesta-se até contra o protesto. O mundo virou uma porta de fábrica e a palavra da vez é piquete.
Estou incomodado com as lutas legítimas que asseguram os direitos sociais? Nunca. Acho até que são poucas. Deveríamos, inclusive, nos mobilizar mais. Não estou falando dos processos necessários para obter conquistas coletivas. Estou falando das tensões do comportamento cotidiano, da prontidão para a briga, da intolerância com a menor piada, do dedo em riste em qualquer ocasião, do patrulhamento eterno pelo politicamente correto, do tribunal ininterrupto-24-horas-por-dia sempre pronto a condenar quaisquer deslizes alheios. As pessoas, definitivamente, perderam a paciência e o pavio nunca esteve tão curto.
Sei que esta minha argumentação é polêmica e, por isso, quero repetir: sou a favor de qualquer movimento que defenda os direitos de minorias, de grupos historicamente perseguidos, de classes desfavorecidas pela sociedade. Temos realmente que trabalhar para que preconceitos e discriminações desapareçam das relações humanas A fim de que todos sejam tratados com respeito. Mas, preciso também afirmar que uma coisa é a prática ou a iniciativa e, outra, o temperamento. Os nervos estão à flor da pele e, como se sabe, gênios exaltados não ajudam a resolver muita coisa.
Mesmo munidos dos discursos mais tolerantes, todos calcados na democracia e no direito à liberdade de expressão, é raro vermos quem suporte opiniões contrárias, visões adversas, comportamentos diferentes e outras ideologias. É a intolerância à intolerância e daí por diante. O fascismo contra o fascismo. A tirania para por fim à tirania. Tudo a ferro e fogo. Dente por dente e olho por olho.
Não estou discutindo o quê, mas o como. Nem estou tecendo méritos ou juízos. Eu apenas olho a parede, vejo-a branca e digo “A parede é branca”.
Mas, vejo também tanta injustiça ocorrendo, muita vez, no afã de se fazer justiça ou com a bandeira da justiça como camuflagem.
Além de assistir a tanta gente lotada de direitos e mimada que não consegue lidar com nenhuma negação às suas vontades.
Nesse mundo irritadiço, ressentimentos, recalques e caprichos facilmente viram causas.
É sempre meio cansativo lidar com gente que comprou a Verdade, à vista, e a registrou no cartório apenas no seu nome, e não sobra nem sequer um pedacinho de Verdade para mais ninguém.
Easy, galera! Alguma leveza não faz mal em alguns momentos.
Particularmente, sugiro que causemos nossas lutas, lutemos pelas nossas causas, e que, no dia a dia, na fila da padaria, nas praças e mercados, nas salas de estar e nos escritórios, como diz outro poeta: é preciso enternecer, mas sem perder a dureza.