Viaja-dor

21 de julho, 2018 - por Max Franco

Viajar é uma das melhores coisas da vida. Difícil de se duvidar disso.
E uma das razões disso é que dá para fazer um bocado das outras coisas melhores da vida viajando, inclusive, voltar para casa.

Mas a noção de “casa'” – para mim – é um conceito fugidio atualmente.
Ainda hoje digo “Vou almoçar lá em casa” tratando da casa da minha mãe.
Chamo de casa – também – a casa onde moram meus filhos.
O apartamento em Campinas, decerto, é também minha casa.
Também chamei de casa os hotéis que ocupei nestes anos de idas e vindas.
Meu filho define muito bem a sua Casa. É a casa onde mora a cachorra.
Então, muitas casas ou nenhuma?
Estou indo para casa para deixar a minha filha, amanhã almoçarei com a minha mãe, lá em casa, depois vou viajar para Campinas de madrugada, mas só chego em casa, à noite. Tão longe de casa…
Dá para entender tanta casa? Às vezes, dá um nó no cérebro. E – também – certa liberdade. O usufruto absoluto do direito de ir e vir.
Mas, de uma coisa, não há dúvidas, nem confusão, nem incertezas. Casa, de fato, não é um lugar que lhe pertence. Casa é o lugar ao qual você pertence.
Por isso, talvez, eu tenha tantas e nenhuma.
Me perdoem, meus entes amados. Não lhes quero menos bem por estar aqui e acolá. Na verdade, talvez até queira mais. Afinal, não há tempero maior para a bem-querência do que a falta. E sei o que é sentir falta. Eu sei o que é viver noite e dia com a presença física da ausência de quem muito amo. É uma dor tangível, mas nem por isso, mensurável. É uma dor pingando do teto da caverna e criando estalagmites, estalactites, milímetro a milímetro, por séculos. É uma dor que não lhe deixa, jamais, esquecer. Insuperável.
Não há como diluir a dor da falta. Dá, quando muito, para se acostumar com ela. A farpa está dentro da carne e faz seu estrago. Não há pinça para tirá-la. Aí, você assimila a dor. Ela faz parte de você. Ela é você.
Eu sei. Eu me chamo Max Roger Franco Pompílio, e também atendo pelo singelo nome de Dor.
Dor, principalmente, por fazer sofrer a quem amo e, pior, a quem me ama. Amar é coisa tão valorosa. Então, por que a moeda de amar, tantas vezes, a lágrima?