A sincronia

13 de julho, 2018 - por Max Franco

Nesta manhã de domingo, tudo parece seguir num doce slow motion, até os raios de sol que, timidamente, lambem os telhados cinzas dos prédios de tijolos aparentes que inundam a antiga cidade de Estocolmo.
O mar tranquilo ficou para trás e agora sigo para Gotemburgo.
Não me acusam com frequência de ser afeito a delicadezas ou a sensibilidades gratuitas, mas, hoje, me sinto numa estranha harmonia com o mundo. Estranha, porque não sei se o mundo é merecedor de sintonias. O mundo é diverso e grande demais. Há gente demasiada. Há formas plurais de ser e de se fazer. É uma reverberação múltipla.
Como daria para ter sincronia com tudo, com um todo com tantas partes?
Como coreografar com cada enésima parcela de um universo tão vasto?
Não sei.
Mas, sei que sinto o que sinto. E o sentimento talvez seja a única vaidade que não é desprezível.
Deve ser a cidade e a sua fauna urbana, a paisagem citadina, me enchendo os olhos, me encantando e inquietando a alma.
Deve ser as descobertas de ontem, e as surpresas de amanhã que nem as sei.
Deve ser Milton Nascimento falseteando Clube da esquina 2′ e me acariciando os tímpanos, e o coração.
Eu sempre soube que, mesmo isento de fé, rezava um pouco quando escutava boa música.
E a música tem esse estranho poder, esse fascínio supremo, de me dividir em milhares de células, de me espalhar ao vento, de unir o dentro com o fora. É como se deus existisse mesmo. Como fosse, de fato, parte harmônica, sistêmica, de um todo.
Olho para o vidro da janela do ônibus ao meu lado e acho o meu reflexo. Encontro o meu reflexo e o mundo ao redor. Me vejo. Vejo meus olhos pescrutadores bebendo os cenários. E contemplo estas imagens, até que não saiba se assisto a mim ou ao mundo. Se sou eu no mundo que encontro, ou o mundo em mim.
Estranhamente, nossas imagens se tocam, se completam, se fundem.

Vê aquela árvore? Sou eu.
Aquela casa? Eu.
Aquela colina? Eu, verde.
Aquele homem nórdico andando de bicicleta? Eu, loiro.
Eu me nadifico no todo. Me tudifico no nada.
E as minhas pequeninas partes se tornam grandes em tudo, porque eu me expando, me dilato, me misturando com o mundo.
Até que não seja mais eu, mas, nós.